sábado, 23 de outubro de 2021

PAZ,  GUERRA,  PAZ

…"é necessário estarmos apercebidos para nos defendermos de quem quiser ofender, porque a presteza aproveita às vezes mais que a força, nas cousas da guerra. Não descansem os amigos da paz, na que agora gozam, se a querem perpetuar porque os contrários dela, se a virem mansa, levá-la-ão nas unhas. E por isso, favoreçam as armas, as quais não são tão contrárias da paz como parecem, antes ela defendem a paz, como os cães defendem as ovelhas posto que pareçam contrárias delas"….(Arte da Guerra no Mar, padre Fernando Oliveira)


(dedico à massa ignara)

António Cabral

Contra-Almirante, reformado

(marrevoltado.blogspot.pt)

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

O  PRESIDENTE  JÁ  DISSE  TUDO ???

Começo pela questão da vírgula. Por exemplo, pode ser:
Não quero saber!
- ou - Não, quero saber!
Diferente não é? 
EU QUERO SABER!   EU QUERO SABER! 
SEI QUE OUTROS, INFELIZMENTE POUCOS, TAMBÉM QUEREM SABER.

Passaram semanas desde que SExa à saída de um dos seus muitos passeios diários disse que havia três equívocos e, pouco depois, emitiu para os ignaros cidadãos comuns um comunicado super lacónico, aí se dizendo que os ditos equívocos tinham sido esclarecidos! 
O Presidente (PR) já disse tudo? Essa agora.
Continuamos com esta farsa de faz de conta e, como é/ foi emitido por Marcelo Rebelo de Sousa o Presidente da República pronto, querem (ele, mas sobretudo outros envolvidos bem conhecidos) que "isto" fique assim, toca de engolir, mesmo que arranhe a garganta, mais do que a espinha do carapau.

Sim, refiro-me outra vez à vergonhosa actuação política de uns quantos que queriam JÁ a exoneração do Chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA). Disseram-nos, concretamente e, para começar, o texto do Palácio de Belém -"ficaram esclarecidos os equívocos suscitados a propósito da chefia do Estado-Maior da Armada".FICARAM ?


Eu, como muitos outros civis e militares, com coluna vertebral, gostaríamos de saber quais as razões que levaram o senhor Cravinho e o seu ajudante a querer correr  com o Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA). 

Sim, eu sei, sei que 99, 9999 % dos meus concidadãos não querem saber disto para nada e, por isso, os farsolas assim continuam caladinhos, com esta pouca vergonha por esclarecer. 
Mas eu e outros QUEREMOS SABER, NÃO DESISTIMOS.
O Presidente certamente sabe, o PM certamente sabe mesmo fazendo sempre parecer que não tem nada a ver com nada, o senhor Cravinho obviamente que sabe, o CEMGFA obviamente que sabe, e ainda outros devem saber. 

E quero/ queremos saber porque:
- é matéria muito importante e que, contrariamente ao que ficou evidente, não foi tratada nem está a ser tratada com decência e discrição; 
- há/ houve causas, a esclarecer, e apuradas responsabilidades;
- colocaram em causa, o Estado democrático, o Estado de direito, instituições, separação de poderes, responsabilidades constitucionais, subordinações constitucionais;
- é imprescindível uma saudável inserção das Forças Armadas na sociedade e na nação;
- estão em causa valores e princípios fundamentais;
- está em causa o serviço público;
- está em causa a questão decisiva do serviço público em sociedade - servir, e não, servir-se.

"O Presidente da República já disse tudo", afirmou já o sr Cravinho
Não, não disse.
E eu quero saber!

António Cabral
Contra-Almirante, reformado
(marrevoltado.blogspot.pt)

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

AS FORÇAS ARMADAS E PORTUGAL

"Não pode amenizar-se a evidente crise das Forças Armadas, designadamente reduzindo a questão a um problema de salários degradados em comparação com outras carreira estaduais…….

Em cada variação histórica da relação do quadro permanente com o contingente, a articulação  implicou dificuldades…………..

Tal perspectiva foi mais formal que efectiva, porque a presença sempre transitória dos conscritos nunca pode desafiar a superioridade qualitativa do quadro permanente…………..

Na complexa área da segurança, cujas incertezas estão a ser duramente pagas por povos Europeus, são os quadros permanentes das Forças Armadas que assumem a obediente responsabilidade institucional, ao mesmo tempo que devem interiorizar o que será o novo conceito estratégico nacional……………"

(Adriano Moreira, "As Forças Armadas", DN, 13 JUL 1999)

O meu melhor amigo militar, que é de Marinha, mostrou-me o artigo a que agora aludo e de que retirei os trechos supra, um longo artigo que para mim é evidente trouxe na altura para a luz do dia inquietações sobre as Forças Armadas, que se arrastam e, naturalmente, sobre o país. Mas, alguém, a sério, se inquietou, se questionou? Alguma coisa foi seriamente ponderada?

A população portuguesa está-se borrifando para tudo o que seja "tropa"(expressão habitualmente usada com o objectivo de denegrir). Querem lá saber. Então se acicatados por exemplo por certos aldrabões de escolas de Lisboa e Coimbra e seguidores, oh…oh!!!!!

A população portuguesa, o cidadão comum, não lê e se algum lê não quer saber e passa à frente do que alguns disseram em 18 de Julho de 2019 e se há coerência e dignidade intelectual com o dito em 19 de Setembro de 2020. Ou coerência e dignidade, simplesmente! Os 99,9999% dos portugueses não quer saber de serviços de informações ou, de associações secretas ou, se as mais altas instâncias do Estado (civis e militares) eventualmente mentem à sociedade seja a propósito dos combustíveis, dos incêndios, da habitação, dos impostos, da justiça, do caudal no Tejo, das Forças Armadas.

A degradação da Instituição Militar, das Forças Armadas, é um contínuo, desde há muitos anos. Por três razões: políticas, ético-profissionais e materiais, e por esta ordem. E há responsáveis, vários, em todos os partidos sem excepção, a saber, concretamente vários dos sucessivos titulares de órgãos de soberania, certos pensadores dos partidos e que muito poucos os conhecem, e algumas das chefias militares passadas e actuais.

E pelas razões que os que têm coluna vertebral intacta sabem, as verdades absolutas, direitinhas, nunca aparecem à luz do dia, nem os seus verdadeiros autores, sabendo-se no entanto quem são quase todos eles. Não aparecem os cozinhados. Não aparecerão. E é interessante, ou lamentável, constatar quem fica calado perante o que se passa, só porque, é um juízo pertinente face a silêncios, são os da sua cor.

Ao olhar o número e qualidade dos "actores" que teceram e tecem certas malfeitorias nada espanta, pois o seu trajecto é bem conhecido mas, lá está, 99,9999 % da malta não quer saber de cursos e mestrados e doutoramentos de certas criaturas ou, de plantações para ervanárias ou, negócios de armamento ou, negócios de combustíveis ou, que uns quantos escrevinhadores avençados e conhecidos papem rotineiramente uns almoços e jantares à borla e assistam a conferências umas mais públicas outras mais reservadas. 

De uma coisa estou seguro. Agora, com este provisório inquilino do gabinete no 7º andar, com este agora todo poderoso CEMGFA, com este Primeiro - Ministro, com este Presidente da República mais o seu irmão gémeo fardado, dentro de, no máximo dois anos,
 os verdadeiros e gravíssimos problemas das ForçasArmadas, a tal situação insustentável periodicamente salientada (insustentável há décadas!) terão resolução rápida. 


Recordando o essencial dos problemas:
> não acabarão as Forças Armadas, nem por decisão interna nem por pressão exterior designadamente de certos países da UE; 
> a história da guarda costeira da UE é apenas um dos "rabos de fora", nada de preocupar, a que por cá praticamente ninguém liga a não ser uma certa instituição;
> a Marinha terá rapidamente definida e executada a substituição de navios e helicópteros; 
> o Arsenal do Alfeite será definitivamente um estaleiro de construção naval e reparação e de acções de manutenção quer dos navios da Armada, quer das embarcações da Autoridade Marítima e da GNR;
> a lei de programação militar será finalmente cumprida;
> os complexos problemas inerentes à assistência na doença dos militares das Forças Armadas serão solucionados;
> as questões inerentes aos efectivos militares serão resolvidas;
> os ex-combatentes verão finalmente solucionadas todas as questões por que se batem há décadas;
> os problemas inerentes ao Instituto de Acção Social das Forças Armadas serão resolvidos;
> o sistema retributivo dos militares e as pensões terão, finalmente o adequado tratamento, e diminuída a disparidade de vencimentos face a outras categorias profissionais;
> serão aprovadas as alterações legislativas necessárias à melhoria da atractividade da carreira militar por parte da juventude, deixando de ser basicamente um convite para pernoitar em quartéis para observação de estrelas á noite. 

Naturalmente, o que acima escrevo tem ironia q.b. 
Porque a realidade é, que a recente reforma (!?) aplaudida por Belém, por S.Bento e ainda mais entusiasticamente no Restelo, não passa de fruto de incompetência, de arrogância de egos sobranceiros e vaidosos de quem soube/ sabe viver e que tratou da vida quando se aperceberam que a coisa não lhes estava a correr muito bem, e da governamentalização das Forças Armadas, a que vários malandros se prestaram ajudar, dando assim mais um passo dentro do quadro global traçado há quase 3 décadas por figurões de partidos conhecidos e com beneplácito escondido da parte de outros, que apenas muito gesticulam.

Como sempre tem acontecido, nada se esclarecerá com rigor.
Estou a imaginar quão preocupados andam 99,9999 % dos meus concidadãos com a importância de instituições e designadamente com a Militar, com as Forças Armadas que são fiéis aos valores da Nação e pilar decisivo da nossa sociedade.

Nem as ideias são delitos nem as opiniões são crimes.
Estou farto de doutores nas TV, de conhecedores, de heróis (??), de cúmplices, de manobras, de leviandades, de infâmias. 
Farto da descarada ausência de vergonha na cara dos bem falantes mas, sempre, sem palavra honrada. 

António Cabral (AC)
Contra-Almirante, reformado
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domingo, 17 de outubro de 2021

R E C O R D A Ç Õ E S

Numa fase da vida, da carreira, andei pelos velhinhos draga-minas, no NRP Rosário mas, sobretudo, no bem operacional NRP Lages com o meu saudoso comandante Francisco Pina.

Anos mais tarde, substituí o Francisco no então famoso Centro de Instrução de Minas e Contra-Medidas (1985-1989).

Anos depois, sendo considerado bem ou mal como um dos mais ou menos bons conhecedores das matérias da guerra de minas, o então CEMA Almirante Andrade e Silva (penso que aconselhado designadamente pelo seu chefe de gabinete, assunto de meados/ finais de1990, e ambos anteriores Comandante Naval e chefe de Estado-Maior do CN) nomeou-me para representar o país num projecto de desenho de um novo navio para guerra de minas. Assunto que, se bem recordo, nasceu de uma conversa do então MDN com o embaixador da Holanda em Lisboa que pediu a colaboração de Portugal, pois a Noruega, se não me falha a memória, tinha abandonado o projecto iniciado pouco antes com a Bélgica e Holanda. E assim meteram a espada ao peito do CEMA. E assim lá fui semanas mais tarde (11MAR1991-28NOV1992).

Vem isto a propósito não do processo administrativo de nomeação em que, em Lisboa, alguns foram bem ordinários, desconhecendo a origem do processo. Vem isto a propósito de várias coisas da minha estadia em Haia, e ter encontrado nos muitos arquivos na garagem várias coisas curiosas desse tempo.

É o que partilho em baixo com duas cópias dessa altura.

A primeira, um desenho de um membro da equipa de apoio sobre o navio do projecto (já desenhado, e pronto para entregar num estaleiro), desenho do navio a naufragar, simbolizando o fim da fase de desenho do projecto e do projecto ele mesmo. A razão é que algures no Verão de 1992, designadamente mas não só, a marinha Holandesa ficou conhecedora das características da maioria das minas deixadas pela então URSS depois da queda do muro de Berlim e unificação das Alemanhas. Conhecidas as minas, menos relevante e necessário pensar em navios mais actualizados. Assim acabou o projecto, e assim regressei a Lisboa como antecipadamente comuniquei em Agosto que o faria no final de Novembro, para grande irritação de um senhor no ministério da defesa.

A segunda cópia é de um desenho que fiz, com conversa inventada, ilustrando a celebração entre mim e o colega Belga, brincando com a coisa, e "gingando" com o chefe do projecto, um bom camarada da marinha Holandesa, capitão-de-mar-e-guerra, velejador exímio, Dirk de seu primeiro nome. Bons tempos, e em que muito aprendi.


António Cabral

Contra-Almirante, reformado

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VERDADEIRA  ANTIGUIDADE

Um lenço de seda de senhora, sem marcas de traças, uma recordação. Sobre a descoberta da Índia. Terá mais de 80/90 anos, mas não tenho dados rigorosos. A quem pertenceu deixou-nos há muitas décadas, e quem sucessivamente o herdou também já não está entre nós.

Cá em casa não temos problemas com este tipo de coisas, e com a história, continuará preservado, em breve irá ser emoldurado.

António Cabral

Contra-Almirante, reformado

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sexta-feira, 15 de outubro de 2021

DEPOIS DO MONTADO,  A ALDEIA

Depois do montado Alentejano (o meu carro era de cor preta, ficou castanho terra), e terras várias e caminhos no Baixo Alentejo, a aldeia Beirã, o meu refúgio. Fotos do Baixo Alentejo e da aldeia. Um bom almoço na aldeia, na minha mesa debaixo da figueira, hum....revigorante. Não há parvalhões que me deitem abaixo.

António Cabral (AC)

Contra-Almirante, reformado

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quarta-feira, 6 de outubro de 2021

A PROPÓSITO DE POUCAS VERGONHAS

Como outros ando preocupado. Ando muito zangado com o que se vem passando e mais ainda por pretenderem que eu e outros somos broncos e mesmo criancinhas que não percebemos os joguinhos de poder e vingançazinhas. 

Não tenho amigos nem conhecidos na comunicação social. 

Adicionalmente a deixar em textos com palavreado relativamente calmo mas em outros sem paciência nem punhos de renda o meu repúdio por coisas que acontecem na sociedade, entretenho-me a percorrer o país e observar realidades, como tem sido nas paragens onde agora ando. Observar realidades e lembrar depois certos  discursos. Olhar às gentes, aos turistas nacionais e estrangeiros, atentar nas palavras de trabalhadores na área do turismo e da hotelaria. Ouvir os jovens desta área e perceber as dificuldades em arranjar recursos humanos.

Ah, e avaliar o "excelente" estado de conservação de certos caminhos, por exemplo, IP8. Naturalmente, com a minha amiga Nikon por testemunha. E neste estão quase 160 000,00 Km.

E por isso partilho alguma coisa, e que isso possa aliviar irritações. Comigo, resulta.

António Cabral

Contra-Almirante, reformado

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Um ex-Cema na RTP3

 Entrevista do Almirante Melo Gomes na RTP3 sobre o episódio da "demissão" do CEMA. Para aceder podem seguir esta ligação. (Nota: o assunto começa a ser tratado aos 26 minutos).

domingo, 3 de outubro de 2021

A demissão do CEMA

Vice-Almirante Pires Neves quer saber as "razões" para a demissão do Chefe do Estado-Maior da Armada. 

"Na RTP 3, o vice-almirante Pires Neves afirmou que não "é muito normal" um processo de demissão do Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada. Diz ele que, "como cidadão", gostaria saber "quais as razões que fundamentam" esta demissão."

Para ler o artigo completo, acompanhado de um vídeo, podem seguir esta ligação.

sábado, 2 de outubro de 2021

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

FORMAS  de  ESTADO

Salgueiro Maia
“Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!


Tenho recordado várias vezes esta famosa dissertação. Mas cada vez mais me interrogo, em que Estado estamos?

Na feliz expressão de um homem da minha profissão que muito respeito e com a qual concordo, o que se passou e está por trás da vergonhosa farsa subjacente aos equívocos é só, provavelmente, um verdadeiro crime de lesa Pátria. 

Mas não interessa para nada, não é verdade? O Benfica ganhou, Portugal apurou-se para a final do mundial do futsal, o  Braga também ganhou!

Vou voltar ao assunto. 

AC

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

"A Insustentável Leveza da Marinha"


 

E  ESTA,  Hein?
Acabei de tomar conhecimento deste texto, da autoria de um oficial reformado da Marinha, o Comandante Costa Correia, que teve papel relevante em diferentes períodos da fase inicial pós 25 de Abril de 1974. Pelo que leio, o Cte Costa Correia espera que, em relação ao que anda anunciado sobre a provável exoneração do actual Chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA), o actual inquilino em Belém mostre que não é um verbo de encher.
Veremos se o Cte Costa Correia acerta.

Ao Presidente da República: mostre que não é um verbo de encher.
A Imprensa informou que o Ministro da Defesa Nacional propôs ao Presidente da República a demissão do Almirante Mendes Calado do cargo de Chefe do Estado-Maior da Armada. 
O Artigo 133 da Constituição estabelece que compete ao Presidente da República, sob proposta do Governo (que - recorde-se - é presidido pelo Primeiro-Ministro) - ouvido o Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas - nomear e exonerar os Chefes de Estado-Maior dos três ramos das Forças Armadas.
Espero, assim, que o Presidente da República mostre que não é um verbo de encher. 

28. Setembro.2021
In Blog - <https://costacorreia.blogspot.com/2021/09/ao-presidente-da-republica-mostre-que.html?m=1>

Mas enquanto escrevo estas linhas, as notícias sobre este tema caem em catadupa, nos jornais e nas TV.  Publico uma delas com sublinhados a amarelo da minha parte:
Presidente da República lembra que é ele quem tem a palavra final, pelo que não haverá, para já, qualquer substituição do Chefe do Estado-Maior da Armada. Marcelo Rebelo de Sousa afirma que houve equívocos na polémica da exoneração do almirante António Mendes Calado e alegada substituição pelo vice-almirante Henrique Gouveia e Melo. Em declarações aos jornalistas, esta quarta-feira, o Presidente da República recordou que o mandato de Mendes Calado foi renovado a 1 de março deste ano, e que a renovação tem, habitualmente, a duração de dois anos - mas que, na altura, o almirante mostrou a disponibilidade para deixar o cargo mais cedo, para permitir que "pudessem aceder à sua sucessão camaradas antes de deixarem a atividade". No entanto, para Marcelo Rebelo de Sousa, ainda não chegou esse momento. "Há aqui um equívoco de momento", declarou.
Para o Presidente da República, além deste primeiro equívoco, foram registados mais dois. O segundo equívoco passa pela fundamentação para a alegada cessão de funções. Marcelo referiu que tem estado a ser apontada a intervenção crítica, feita pelo atual Chefe do Estado-Maior da Armada, sobre as alterações à Lei de Defesa Nacional - uma posição acompanhada pelos restantes chefes dos ramos militares.
O Presidente da República nota que, apesar de terem criticado as mudanças, a partir do momento em que foi decretada a lei, os chefes dos três ramos militares acataram-na e respeitaram-na, o que, para Marcelo, é um "exemplo de lealdade constitucional" - logo, nunca seria motivo para uma exoneração.
O terceiro e"equívoco" mencionado por Marcelo Rebelo de Sousa prende-se com o facto de se estar a falar numa "substituição". Ora, só poderá haver uma substituição depois de alguém terminar funções, recorda Marcelo, o que ainda não é o caso.
"Há um momento adequado para falar de substituição, que não é este", declarou.
O Presidente da República lamentou ainda que o nome do vice-almirante Gouveia e Melo tenha sido envolvido na polémica. Marcelo Rebelo de Sousa lembrou que o vice-almirante merece, pela sua carreira, as insígnias que recebeu e, pela sua atuação na task force, a admiração de todos os portugueses. Pelo seu "mérito e classe", defende Marcelo, dispensava ser "envolvido numa situação de atropelamento de pessoas e instituições".
Na ótica de Marcelo Rebelo de Sousa, há que "salvaguardar a reputação das pessoas envolvidas e o prestígio das instituições" e quando chegar o momento de tomar a decisão de substituir o Chefe do Estado-Maior da Armada, só há uma pessoa que tem o poder de tomá-la: o Presidente da República.

Assim, se bem percebo isto tudo, o Presidente da República não aceitará exonerar, PARA JÁ, repito o PARA JÁ, o actual CEMA o que, legitimamente, será como que mostrar um cartão amarelo ao governo, concretamente ao PM António Costa que, como é habitual nele parece que nada disto partiu dele ou teve alguma coisa a ver com ele e, naturalmente, ao inenarrável ministro Gomes Cravinho jr, e ao actual Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas.

Mas, pela conversa de Marcelo Rebelo de Sousa, percebe-se que ele quer que o actual CEMA saia a seu pedido, sem ser empurrado, uns dias antes do vice-almirante das vacinas ter que passar à reserva por  atingir o limite de idade. Coisa que aconteceu a dezenas e dezenas, é a vida militar

Portanto, dando uns ares de que não é um verbo de encher, na feliz referência do Cte Costa Correia, mostra-se verdadeiramente um Salomão
Ora país nenhum progrediu com verbos de encher. 
Mas dificilmente a sociedade portuguesa melhorará com Salomões!

Por fim, uma coluna vertebral sã nunca permite que a usem nos jogos e insídias de terceiros. 
E certa gentalha, se tivesse coluna vertebral, que NÃO TÊM, esses sim, demitiam-se, JÁ, depois do que disse o PR!

António Cabral (AC)

terça-feira, 28 de setembro de 2021

HAVIA  DÚVIDAS ?

Eu não as tinha.

Está prestes a consumar-se.

Do passado tivemos a estranha exoneração de um CEMGFA com justificação que entrava pelos olhos dentro de que não era nada correspondente à realidade.

Agora parece que vamos ter a muito curto prazo a exoneração de um CEMA. É só aguardar os motivos invocados, e o comunicadozinho afixado no "sítio" da Presidência da República.

Para quem continua a ater-se a rodriguinhos, aí está o toque final que confirmará o perfil há muito conhecido, dos proponentes da exoneração, de quem a vai sancionar (certamente com grande pesar, não é verdade….…) e de quem se presta a tudo isto.  

Se eu fosse quem vai ser exonerado sei bem o que faria, e o que nunca aceitaria.

Eis a governamentalização das Forças Armadas em todo o seu esplendor. Deve ser difícil descer mais baixo. VERGONHOSO.

Vou aguardar para observar os diversos e diferentes comportamentos de todos os "actores". Associações várias incluídas.

Agora tenho de ir tomar um comprimido de "Primperan" que, para quem não saiba, é um medicamento para parar os vómitos.

António Cabral

Contra-Almirante, reformado

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sexta-feira, 24 de setembro de 2021

PARA AJUDAR NO PERÍODO DE REFLEXÃO

Para, respeitosamente, tentar contribuir para acalmar as mentes que agitadas devem andar depois de alguns episódios da campanha parte dos quais excelentemente recordados já em dois Domingos por Ricardo Araújo Pereira, e assim enfrentar o período de reflexão com sorriso paciente e espírito distendido, deixo a minha contribuição com bonecada que me foi remetida.

António Cabral

Contra-Almirante, reformado

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terça-feira, 14 de setembro de 2021

R E C O R D A Ç Õ E S 

A propósito do que adiante refiro, mais uma vez se me coloca a questão de escrever ou não memórias. 

Vem isto a propósito do interessante artigo que começa na página 78 da Revista de Marinha, Julho/ Agosto 2021, com o título - "Jamanta O Gigante Gentil".

Artigo que me fez recuar umas décadas, ao tempo em que comandei o NRP Quanza, e à época em que estive com o navio nos Açores. E, concretamente, ao dia em que com mar absolutamente chão, pairei a muito escassa distância dos Ilhéus Formigas. E, então, dois botes na água e vários elementos da guarnição autorizados a ir junto dos penhascos, onde o oceano não fazia rebentação, tal a calmaria.

A jamanta é um bicho colossal, gracioso e curioso. 

Mas é ENORME, e isso fez de repente os botes largarem rápidos e afastarem-se da zona. Porquê? Duas enormes jamantas passeando-se muito pertinho da superfície.

Graciosas, gentis, curiosas, e enormes, pelo que, à cautela,………….

António Cabral

Contra-Almirante, reformado

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sábado, 11 de setembro de 2021

Constituição da ASubPOR - Associação dos Submarinistas de Portugal

Realizou-se neste dia 11 de Setembro de 2021, na Delegação do Clube do Sargento da Armada, no Feijó, a Assembleia Constituinte da ASubPOR - Associação dos Submarinistas de Portugal.

A assembleia teve a seguinte Ordem de Trabalhos:

  1. Aprovar a constituição duma Associação a denominar “Associação dos Submarinistas de Portugal (ASubPOR)”;
  2. Aprovação da Comissão Instaladora (CI);
  3. Aprovação dos Estatutos da futura ASubPOR;   
  4. Designar três elementos da CI para outorgar na escritura pública de constituição;
  5. Aprovação dos futuros sócios.

A ideia de criar esta associação nasceu do sucesso das muitas tertúlias realizadas e sempre muito concorridas pelos antigos submarinistas, tendo-se formado uma Pré Comissão Instaladora composta por 15 elementos que dinamizou todo o processo que culminou na realização desta Assembleia e na constituição da ASubPOR.

Votos de muito sucesso e de longa vida para a ASubPOR.

Os contactos para a ASubPOR são os seguintes:

Tlm: 919 103 915

Email: : asubportugal@gmail.com

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

CMG REF José Joaquim Casado Parreira


É com profunda mágoa que venho dar a muito triste notícia, que me chegou há minutos, do falecimento do nosso querido Camarada de Curso e Amigo, Casado Parreira.

Segundo seu filho, há cerca de três meses começou a preocupar-se com perda de peso. Depois de uma série de análises, os médicos detectaram-lhe uma situação cancerosa sem que, no entanto, tenham conseguido localizá-la.
Tendo iniciado sessões de quimioterapia, ontem já não chegou a fazer a terceira como estava previsto, por ter caído em casa, ficando inanimado.
Sendo transportado imediatamente para o hospital de Santa Maria, acabou por falecer hoje por volta das 07:00.
O corpo aí permanecerá até à próxima segunda feira, dia em seguirá para a capela da Ericeira, ficando em câmara ardente da 12 às 14 horas. Depois de uma cerimónia religiosa o féretro seguirá para o cemitério de Rio de Mouro onde será cremado.
A sua Família, apresento em meu nome e do Curso “OC” os mais sentidos pêsames.

CMG (Ref) Carlos Fernando Dias Souto


 Lamentamos dar a conhecer a mensagem recebida através de "A Voz da Abita":

"Estimados Camaradas,

De acordo com informações recebidas de diversas fontes é com muito pesar que damos a conhecer o falecimento do nosso estimado Camarada, CMG (R) Carlos Fernando Dias Souto, que ocorreu durante a noite de ontem para hoje nos Estados Unidos da América onde residia há vários anos. Aos seus Amigos e Camaradas, e em particular aos do Curso Pedro Nunes a que pertencia, o testemunho do nosso pesar extensivo à sua Família, e em particular à sua Mulher Brenda Souto ...

 As informações recebidas dão ainda a conhecer que o corpo do nosso falecido camarada será cremado dentro de alguns dias.

Saudações Navais"

"O Navio... desarmado" associa-se a esta manifestação de pesar e envia sentidas condolências à sua Família e aos seus amigos e camaradas.

JORGE  SAMPAIO

Faleceu hoje o Dr Jorge Sampaio, ex Presidente da República, ex Comandante Supremo das Forças Armadas. 

Faleceu um concidadão de elevada estatura intelectual, humanista, um homem exímio, em quem não votei para as eleições presidenciais que ganhou, e cinco anos passados voltou a ganhar.

É comum, quando se deixa a presença terrena, haver muitos elogios.

No caso deste meu concidadão, cuja morte me entristece pois penso que se a saúde não o tivesse atraiçoado, muito se aprenderia ainda com ele, designadamente pelos seus textos como recentemente confirmei, há lugar a diferentes referências.

Todos nós, sem excepção, temos momentos altos e baixos, todos cometemos erros. Jorge Sampaio não foi excepção.

Como aprendi na fase final ainda em casa, antes de singrar em formação superior, e depois ao longo da carreira, primeiro há que realçar aspectos positivos ao longo de uma vida e, apenas depois, referências aquilo em que, respeitosamente, se tenha opinião menos favorável

O meu concidadão Jorge Sampaio chamou-me à atenção bastante antes  de 25 de Abril de 1974. Durante as rebeldias estudantis. E, muito particularmente, através de um meu primo infelizmente já falecido, nessa altura estudante de medicina em Coimbra, primo que, juntamente com outros, esteve detido uns dias na então unidade de artilharia de costa do Exército no alto da Parede, localidade onde eu vivia, e onde através do portão vi o meu primo de capa e batina sentado na parada com muitos outros.

Sendo eu apenas um simples cidadão comum, atrevo-me a dizer sobre Jorge Sampaio que sempre o considerei um cavalheiro, um homem decente. Subiu muito na minha consideração quando percebi que decidira candidatar-se a Presidente da República sem passar cartão ao seu partido e em particular aos dirigentes. A sua candidatura a Lisboa - Por Lisboa, a responsabilidade - devia servir de exemplo. Porque Jorge Sampaio, independentemente de algumas críticas justas, procurou servir, e não servir-se. Exemplo que não é muito seguido.

Creio que Jorge Sampaio é o autor da frase - 25 de Abril sempre. Posso estar enganado, mas Jorge Sampaio creio que mostrou claramente que um Presidente pode, e deve, ser próximo e ao mesmo tempo distante. Creio que respeitou bastante bem a separação de poderes. Creio que o exemplo não singrou. 

Quanto ao ex Comandante Supremo das Forças Armadas, permanece para mim uma grande crítica, relativamente à exoneração de um ex Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas. Estranha. Dos vários textos dele, que guardo, nomeadamente, discursos nos actos de posse de chefias militares, e outros eventos relativos à defesa nacional e relativos às Forças Armadas, e relativos a aspectos de segurança na sociedade, não me recordo de citações dizendo que - são os melhores dos melhores - nem me recordo de incoerências relativamente à instituição militar. 

Recordo que, sem margens para dúvidas, em certos discursos deixou claro que muito havia a alterar respeitante à instituição militar, à defesa nacional, a questões de segurança. Embora muitos possam ter opinião diversa, desde o final da primeira maioria absoluta de Cavaco Silva PM, que CDS, PS e PSD estão alinhados quanto a caminhos relativamente à defesa nacional e às Forças Armadas.

Cedo demais partiu. Descanse em paz.

António Cabral

Contra Almirante, reformado

(marrevoltado.blogspot.pt)

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

O respeito pelos militares

Há por aí, na esfera política, quem encha a boca com frases grandiloquentes relativas ao respeito pelos militares, mas os actos desmentem-nas violentamente.

Abundam decerto os exemplos, mas não deixarei de registar aqui um caso pessoal.

Um dos tratamentos aconselhados para a trocanterite são injecções de PRP - plasma rico em plaquetas.

Aconselhado por alguém, resolvi recorrer a essa terapêutica, no Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa. Depois de uma primeira injecção, cujos resultados não foram excelentes, vi-me na contingência de o repetir, o que vim a  fazer alguns meses depois.

Comparticipadas pelo IASFA, cada uma dessas intervenções custou-me por volta de 100 euros.

Há poucos dias, como se tornasse necessário um terceiro reforço, marquei-o, na sequência da devida consulta médica. 

Ao final do dia fui informado pelo HCVP de que a estimativa do custo era de 500 euros; pedindo para ser elucidado sobre a razão de ser deste brutal aumento, esclareceram-me que este tratamento deixou de ser comparticipado pelo IASFA.

Aqui deixo, pois, o alerta: ao mesmo tempo que trompeteiam a grande consideração que nutrem pelos militares, vão-nos reduzindo paulatina e surdamente os parcos benefícios que ainda temos, sustentados, aliás, por descontos nos nossos vencimentos e pensões.

Até quando?


quarta-feira, 8 de setembro de 2021

A  REFORMA (????)

A dita reforma (??) das FA recentemente em vigor desencadeou protestos diversos. 

A mim nada espantou. Creio que muitos se esqueceram, e passaram anos a fingir que não sabiam que, a partir do 2º mandato de maioria absoluta de Cavaco Silva, PSD, CDS e PS passaram a estar irmanados em tudo o respeitante às FA. O grande objectivo é a governamentalização das FA. Que agora é completa. Estão-se nas tintas se lhes dizem nada perceber de FA.

Na minha opinião, o que agora acontece e está relatado em alguns OCS, tem dois objectivos claros:
1º - lembrar, dizer já aos Ramos - eu é que mando.
2º - tentar que o CEMA se demita, para ser possível indigitarem quem se deseja, e que se sabe quem é. Além de que o desejo é partilhado por políticos, oh se é!

Vou aguardar, para ver se repetem uma cena anterior.

António Cabral

Contra-Almirante, reformado

(marrevoltado.blogspot.pt)

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

O h h h. . . . . 

Tenho uma curiosidade: já avisaram o sr Eduardo Cabrita? E o sr António Costa? E o sr Marcelo Rebelo de Sousa?

Creio que deviam ser avisados de que a célebre lancha da GNR, baptizada de ‘Bojador’, parece que encalhou esta tarde algures entre Carcavelos e a Parede. Acidentes marítimos acontecem, mas este era só uma questão de tempo.

Um amigo acabou de me telefonar a perguntar o que eu pensava disto. Digo-vos o que lhe transmiti  - nada de espantar.

António Cabral
Contra-Almirante, reformado
(marrevoltado.blogspot.pt)

Ps: parafraseando um bom camarada de armas, os cavalos marinhos estariam de folga?

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

"ESTA VIDA DE MARINHEIRO", pelo capitão da Marinha Mercante António Marques da Silva

Resolvi escrever estas linhas para tentar contar o que me recordo da minha passagem pela Marinha de Guerra. Vou falar por mim, pois embora o grupo fosse grande e composto por alunos dos quatro cursos da Escola Náutica - pilotagem, máquinas marítimas, eletrotecnia e administração - certamente cada um de nós terá guardado a sua memória desse tempo. 

Durante a frequência do primeiro ano, iniciado em Outubro de 1949, tivemos conhecimento que tinha sido determinado superiormente para todos os alunos da Escola Náutica, um período de serviço militar obrigatório na Marinha de Guerra, frequentado como Cadetes da Reserva de Marinha.   

Por essa razão, após terminar o primeiro ano com aproveitamento, em princípio de Agosto de 1950 assentei praça no Quartel de Marinheiros, em Alcântara, com dezanove anos de idade. Não fiz inspeção de saúde, pois a que havia efetuado para dar entrada na Escola Náutica, no ano anterior, era considerada válida.

Cadete da Reserva Marítima António Marques da Silva

Devia sim comparecer no dia que foi determinado, devidamente equipado com fardamento branco, por ser verão, e trazer além da necessária roupa interior, um fato de ganga azul, botas pretas e equipamento de ginástica. Ninguém me perguntou se havia dinheiro para essa despesa. Era ordem para cumprir, caso pretendesse concluir o curso e embarcar na marinha mercante para trabalhar.

Entrei assim para a Reserva de Marinha, onde me foi atribuído o número sessenta e dois. Em seguida, ainda no Quartel em Alcântara, teve lugar um sumário Juramento de Bandeira. Depois segui com os meus colegas e respetivas bagagens numa pequena lancha, ao ar livre, Rio Tejo acima, até ao Quartel de Marinheiros em Vila Franca de Xira, onde ia ter início a primeira fase do período de recruta, que terminou no fim de Setembro.

Cadetes da Reserva Marítima

No dia da chegada a este aquartelamento, esperava por cada um de nós uma maca de lona, onde estava enrolado um colchão, um cobertor, uma almofada e um bivaque. A essa maca, com o respetivo número, era atribuído um beliche que podia ser inferior ou superior, visto que se tratava de um conjunto metálico de duas camas sobrepostas, fixo na parede, de forma a ser desmontado diariamente e colocado ao alto. Nesse primeiro dia ensinaram a enrolar a dita maca que devia ser amarrada com um cabo delgado, (o tomadouro), de forma a poder ser pendurada ao alto num gancho, nas costas do beliche, para libertar todo o espaço da caserna. Este espaço tinha anexa uma zona com pequenas mesas e cadeiras onde se podia estar, e ainda uma grande casa de banho para uso comum. Foram estas as instalações onde passei os dois meses do verão, com muitos mosquitos e algumas osgas.

Instrução de Infantaria

Durante estes dois meses, todo o tempo foi ocupado com a denominada recruta. Para começar, entenderam ser necessárias formaturas e mais formaturas, para se conseguir aprender todas as formalidades imprescindíveis a um bom militar, tanto mais que se tratava de futuros oficiais. Havia também muitos exercícios com diversas armas, aulas de segurança, muita ginástica e até algum treino de remo nos escaleres, onde se navegava até perto da ponte de Vila Franca, que nessa data ainda estava em construção. O tempo foi passando, aliviado com alguns fins-de-semana em Lisboa e, no fim de Setembro, com o programa cumprido, mandaram-me para casa.

No princípio de Outubro, como era normal, recomecei as aulas na Escola Náutica para frequentar o segundo ano que terminei com aproveitamento em Julho de 1951, concluindo assim o curso de pilotagem. Mas não fiquei de férias, porque no princípio de Agosto dei entrada no Corpo de Marinheiros, no Alfeite, para iniciar a segunda fase do serviço militar obrigatório, que só veio a terminar em Março do ano seguinte, depois de ter prestado provas finais com aproveitamento.

Nesta segunda fase, muito mais complexa e variada, o tempo parecia pouco para cumprir todo o programa estabelecido. Aulas teóricas e práticas sobre armamento, folhas de apontamentos de tiro, aulas práticas para conhecimento das diversas armas e sua montagem e desmontagem para manutenção, preencheram por completo os primeiros meses no Corpo de Marinheiros. Sabres, espadas, baionetas, pistolas, carabinas, metralhadoras terrestres e antiaéreas, canhões e bombas de profundidade, preencheram um nunca mais acabar de matéria para aprender.

Momentos de lazer

Depois desta intensa aprendizagem, chegou a hora de passar para a Base Naval de Lisboa e lá segui com a maca às costas para os diversos embarques.

Nos dois draga-minas foram várias as saídas, não só para treino de tiro ao alvo flutuante com a peça de 76 milímetros, mas ainda para rocegar minas, largar bombas de profundidade e treinar o tiro com a metralhadora antiaérea.

Em seguida chegou a passagem para uma fragata e neste diferente e mais completo navio, era necessário tomar conhecimento da diversa aparelhagem de deteção anti-submarina e da complexidade das armas de fogo antiaéreo e de superfície.

Faltava agora a passagem por um submersível e lá chegou o dia em que pela manhã saí a barra de Lisboa num dos nossos submarinos. Pouco depois vi da amurada da torre o navio a ficar coberto pela água. O Comandante fez questão de nos ter cá em cima, junto dele, para ouvir todas as explicações acerca das manobras e dos exercícios que estavam previstos para esse dia que ia começar.

Depois o navio submergiu e lá me foi dado ver pelo periscópio a aproximação à fragata que nos ia perseguir e da qual devíamos fugir sem ser detetados. Foi um dia que não mais esqueci. Tudo era novo e aliciante, mas a paciência de todos a bordo ocasionou um excelente convívio, com um jantar de bifes de cebolada que ficou na lembrança.

Ao cair da noite, concluído o programa, entramos em Setúbal. Como não havia lugar a bordo para todos, lá se foi de maca às costas para a dependência de um cinema antigo, onde se estendeu o colchão para passar a noite.

Toda a permanência nestas unidades era a riscar, porque como eramos muitos não havia lugar para ninguém. Onde se encontrasse lugar para estender a maca, era o nosso alojamento. Serviam corredores, salas e salotes, mas camarotes não, porque estavam sempre ocupados.

A bordo da "Sagres" (velha)

Chegava agora o fim do treino de mar e estava programada uma saída de alguns dias no navio escola “SAGRES”. Foi com satisfação que embarquei nessa linda barca, a velha “FLORES”, da qual já tinha ouvido algumas referências. Desta vez não tive sorte no embarque, pois os dias foram passando e a viagem não mais principiava. Dizia-se que a verba não tinha sido atribuída a tempo de preparar a saída.

Terminou assim o meu serviço militar obrigatório, com uma estadia de vinte dias a bordo da nossa velha “Sagres”, ancorada no quadro, em manobras de largar e carregar pano, aulas de marinharia prática, de sinais, de içar e arriar baleeiras, de ginástica e de remo e vela, nos escaleres do navio.

NRP "Sagres" (velha)

Em Março de 1952, após exame final no Quartel de Marinheiros de Vila Franca de Xira, passei à disponibilidade como Guarda Marinha na Reserva. 

Caxias, 10 de Julho de 2020         

António Marques da Silva



Obs:

1. O texto que aqui se reproduz foi publicado no jornal “O Ilhavense” no passado dia 15 de Abril e integra um conjunto de vários artigos nos quais o autor, Sr. Comandante António Marques da Silva, recorrendo à sua memória, relata episódios e experiências que viveu há sete décadas, na fase inicial de uma vida totalmente dedicada ao Mar.

2. O Sr. Comandante António Marques da Silva é um distinto capitão da Marinha Mercante, que recentemente comemorou o seu 90º aniversário. Comandou navios bacalhoeiros e de comércio, foi gestor e consultor no sector marítimo e professor na Escola Náutica. Superintendeu à transformação do lugre bacalhoeiro “Creoula” em Navio de Treino de Mar e integrou a Comissão Técnica Consultiva do Museu de Marinha. É um ilustre Académico Emérito da Academia de Marinha e autor ou co-autor de 12 livros de temática marítima. Exímio e premiado modelista náutico, colabora activamente com os Amigos do Museu de Ílhavo e o Museu Marítimo de Ílhavo.

Tito Cerqueira



domingo, 15 de agosto de 2021

CONCERTO, BANDA da ARMADA

CASUALMENTE, E EM BOA HORA ACONTECEU, TELEFONAREM-ME, E POR ISSO ESTOU SENTADO A VER E OUVIR E A DELICIAR-ME COM UM CONCERTO ANTIGO DA BANDA DA ARMADA, NA RTP2. 

RECOMENDO QUE USEM A TECNOLOGIA E VEJAM.

António Cabral

Contra-Almirante, reformado

(marrevoltado.blogspot.pt)