Resolvi escrever estas linhas para tentar contar o que me recordo da minha passagem pela Marinha de Guerra. Vou falar por mim, pois embora o grupo fosse grande e composto por alunos dos quatro cursos da Escola Náutica - pilotagem, máquinas marítimas, eletrotecnia e administração - certamente cada um de nós terá guardado a sua memória desse tempo.
Durante a
frequência do primeiro ano, iniciado em Outubro de 1949, tivemos conhecimento
que tinha sido determinado superiormente para todos os alunos da Escola Náutica,
um período de serviço militar obrigatório na Marinha de Guerra, frequentado
como Cadetes da Reserva de Marinha.
Por essa razão, após
terminar o primeiro ano com aproveitamento, em princípio de Agosto de 1950 assentei
praça no Quartel de Marinheiros, em Alcântara, com dezanove anos de idade. Não
fiz inspeção de saúde, pois a que havia efetuado para dar entrada na Escola
Náutica, no ano anterior, era considerada válida.
Devia sim comparecer no dia que foi determinado, devidamente
equipado com fardamento branco, por ser verão, e trazer além da necessária
roupa interior, um fato de ganga azul, botas pretas e equipamento de ginástica.
Ninguém me perguntou se havia dinheiro para essa despesa. Era ordem para
cumprir, caso pretendesse concluir o curso e embarcar na marinha mercante para
trabalhar.
Entrei assim para
a Reserva de Marinha, onde me foi atribuído o número sessenta e dois. Em
seguida, ainda no Quartel em Alcântara, teve lugar um sumário Juramento de Bandeira.
Depois segui com os meus colegas e respetivas bagagens numa pequena lancha, ao
ar livre, Rio Tejo acima, até ao Quartel de Marinheiros em Vila Franca de Xira,
onde ia ter início a primeira fase do período de recruta, que terminou no fim
de Setembro.
No dia da chegada a este aquartelamento, esperava por cada um de nós uma maca de lona, onde estava enrolado um colchão, um cobertor, uma almofada e um bivaque. A essa maca, com o respetivo número, era atribuído um beliche que podia ser inferior ou superior, visto que se tratava de um conjunto metálico de duas camas sobrepostas, fixo na parede, de forma a ser desmontado diariamente e colocado ao alto. Nesse primeiro dia ensinaram a enrolar a dita maca que devia ser amarrada com um cabo delgado, (o tomadouro), de forma a poder ser pendurada ao alto num gancho, nas costas do beliche, para libertar todo o espaço da caserna. Este espaço tinha anexa uma zona com pequenas mesas e cadeiras onde se podia estar, e ainda uma grande casa de banho para uso comum. Foram estas as instalações onde passei os dois meses do verão, com muitos mosquitos e algumas osgas.
Durante estes dois meses, todo o tempo foi ocupado com a
denominada recruta. Para começar, entenderam ser necessárias formaturas e mais
formaturas, para se conseguir aprender todas as formalidades imprescindíveis a
um bom militar, tanto mais que se tratava de futuros oficiais. Havia também
muitos exercícios com diversas armas, aulas de segurança, muita ginástica e até
algum treino de remo nos escaleres, onde se navegava até perto da ponte de Vila
Franca, que nessa data ainda estava em construção. O tempo foi passando,
aliviado com alguns fins-de-semana em Lisboa e, no fim de Setembro, com o
programa cumprido, mandaram-me para casa.
No princípio de Outubro, como era normal,
recomecei as aulas na Escola Náutica para frequentar o segundo ano que terminei
com aproveitamento em Julho de 1951, concluindo assim o curso de pilotagem. Mas
não fiquei de férias, porque no princípio de Agosto dei entrada no Corpo de
Marinheiros, no Alfeite, para iniciar a segunda fase do serviço militar
obrigatório, que só veio a terminar em Março do ano seguinte, depois de ter
prestado provas finais com aproveitamento.
Nesta segunda
fase, muito mais complexa e variada, o tempo parecia pouco para cumprir todo o
programa estabelecido. Aulas teóricas e práticas sobre armamento, folhas de
apontamentos de tiro, aulas práticas para conhecimento das diversas armas e sua
montagem e desmontagem para manutenção, preencheram por completo os primeiros
meses no Corpo de Marinheiros. Sabres, espadas, baionetas, pistolas, carabinas,
metralhadoras terrestres e antiaéreas, canhões e bombas de profundidade,
preencheram um nunca mais acabar de matéria para aprender.
Depois desta intensa aprendizagem, chegou a hora de passar
para a Base Naval de Lisboa e lá segui com a maca às costas para os diversos
embarques.
Nos dois
draga-minas foram várias as saídas, não só para treino de tiro ao alvo
flutuante com a peça de 76 milímetros, mas ainda para rocegar minas, largar
bombas de profundidade e treinar o tiro com a metralhadora antiaérea.
Em seguida chegou
a passagem para uma fragata e neste diferente e mais completo navio, era
necessário tomar conhecimento da diversa aparelhagem de deteção anti-submarina
e da complexidade das armas de fogo antiaéreo e de superfície.
Faltava agora a
passagem por um submersível e lá chegou o dia em que pela manhã saí a barra de
Lisboa num dos nossos submarinos. Pouco depois vi da amurada da torre o navio a
ficar coberto pela água. O Comandante fez questão de nos ter cá em cima, junto
dele, para ouvir todas as explicações acerca das manobras e dos exercícios que
estavam previstos para esse dia que ia começar.
Depois o navio
submergiu e lá me foi dado ver pelo periscópio a aproximação à fragata que nos
ia perseguir e da qual devíamos fugir sem ser detetados. Foi um dia que não
mais esqueci. Tudo era novo e aliciante, mas a paciência de todos a bordo
ocasionou um excelente convívio, com um jantar de bifes de cebolada que ficou
na lembrança.
Ao cair da noite,
concluído o programa, entramos em Setúbal. Como não havia lugar a bordo para
todos, lá se foi de maca às costas para a dependência de um cinema antigo, onde
se estendeu o colchão para passar a noite.
Toda a permanência
nestas unidades era a riscar, porque como eramos muitos não havia lugar para
ninguém. Onde se encontrasse lugar para estender a maca, era o nosso alojamento.
Serviam corredores, salas e salotes, mas camarotes não, porque estavam sempre
ocupados.
Chegava agora o fim do treino de mar e estava programada uma
saída de alguns dias no navio escola “SAGRES”. Foi com satisfação que embarquei
nessa linda barca, a velha “FLORES”, da qual já tinha ouvido algumas
referências. Desta vez não tive sorte no embarque, pois os dias foram passando
e a viagem não mais principiava. Dizia-se que a verba não tinha sido atribuída
a tempo de preparar a saída.
Terminou assim o
meu serviço militar obrigatório, com uma estadia de vinte dias a bordo da nossa
velha “Sagres”, ancorada no quadro, em manobras de largar e carregar pano,
aulas de marinharia prática, de sinais, de içar e arriar baleeiras, de
ginástica e de remo e vela, nos escaleres do navio.
Em Março de 1952, após exame final no Quartel de Marinheiros de Vila Franca de Xira, passei à disponibilidade como Guarda Marinha na Reserva.
Caxias, 10
de Julho de 2020
António Marques da Silva
Obs:
1. O texto
que aqui se reproduz foi publicado no jornal “O Ilhavense” no passado dia 15 de
Abril e integra um conjunto de vários artigos nos quais o autor, Sr. Comandante
António Marques da Silva, recorrendo à sua memória, relata episódios e experiências que
viveu há sete décadas, na fase inicial de uma vida totalmente dedicada ao Mar.
2. O Sr. Comandante
António Marques da Silva é um distinto capitão da Marinha Mercante, que
recentemente comemorou o seu 90º aniversário. Comandou navios bacalhoeiros e de
comércio, foi gestor e consultor no sector marítimo e professor na Escola
Náutica. Superintendeu à transformação do lugre bacalhoeiro “Creoula” em Navio
de Treino de Mar e integrou a Comissão Técnica Consultiva do Museu de Marinha. É
um ilustre Académico Emérito da Academia de Marinha e autor ou co-autor de 12
livros de temática marítima. Exímio e premiado modelista náutico, colabora
activamente com os Amigos do Museu de Ílhavo e o Museu Marítimo de Ílhavo.
Tito
Cerqueira
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