domingo, 29 de junho de 2025

Até sempre, Agostinho!

 

Junto se transcreve a homenagem póstuma de um seu camarada de curso, o Engenheiro Jorge Bettencourt:

"Camaradas e Amigos, 

A notícia da partida do Agostinho Ramos da Silva chegou como um murro no estômago — injusta e pesada. Escrevi na minha mensagem que “partiu mais um dos melhores de nós”, e é impossível não sentir o peso desta verdade. A cada partida, a nossa formatura vai ficando mais pequena, mas a memória dos que se destacaram pelo seu carácter, entrega e amizade permanece viva entre todos. O Agostinho foi para os que responderam à minha mensagem, uma referência de camaradagem, de princípios e de dedicação. Todos recordaram a sua generosidade, o compromisso com o que era justo e necessário, a sua entrega às causas comuns e a lealdade para com os amigos. Foi um companheiro de jornada, alguém com quem partilharam esperanças, lutas e sonhos. As memórias que partilharam evocam encontros marcantes: almoços a bordo do “Santa Maria Manuela”, convívios no Instituto Hidrográfico, conversas e reencontros que ficam gravados como momentos de verdadeira amizade. Para muitos, o Agostinho era o amigo de eleição, com quem partilharam aventuras e confidências, como as “caçadas” aos espanhóis no Algarve, e que nunca faltava com uma palavra ou um telefonema, especialmente pelo Natal. Os comentários à minha publicação no Facebook, igual à que vos enviei por mensagem, traçam dele um retrato comovente: um homem bom, genuinamente bom, que soube cultivar amizades ao longo de toda a vida — desde os tempos da infância até aos navios e organismos onde serviu, muitas vezes como Comandante, passando naturalmente pela Escola Naval. Lembraram-no como Comandante no Cunene e na António Enes, como Chefe do Departamento Marítimo dos Açores, como companheiro nas lutas comuns e até como amigo para as sardinhadas na Rebelva. Cada memória partilhada carrega a dignidade de uma despedida sincera, e a certeza de que o Agostinho deixa um vazio difícil de preencher. Mas não foram só as palavras de luto. Houve também música — como o “O Mio Babbino Caro”, partilhado em sua honra — e gestos de homenagem silenciosa que dizem tanto como as palavras. A sua companheira de vida, Manuela, foi várias vezes mencionada com ternura, reconhecimento e respeito, tal como o seu irmão Paulo. A sua cultura, seriedade e perfil inspirador deixaram marca. Era um amigo “seguro”, alguém cuja presença transmitia respeito e confiança. A sua ausência deixa um vazio difícil de preencher, uma sensação de perda de uma referência, de alguém com quem todos gostariam de se ter cruzado mais vezes. A notícia da sua partida foi recebida com consternação e tristeza, mas também com um profundo sentimento de gratidão por tudo o que partilhámos. Mesmo aqueles que, por razões de distância, não poderão estar presentes nas cerimónias fúnebres, fizeram questão de expressar o seu pesar e de sublinhar a importância do Agostinho nas suas vidas. A vida impõe-nos despedidas difíceis, e esta é, sem dúvida, uma das que mais dói. O Agostinho deixa muitas saudades, mas também a certeza de que, enquanto houver memória, continuará presente na nossa formatura, no espírito de camaradagem e nos valores que partilhámos. 

Descansa em paz, Camarada. A tua memória permanece viva entre todos nós.

Abraços,

Jorge"

sábado, 28 de junho de 2025

VALM (Ref.) Agostinho Ramos da Silva



A triste notícia chegou-nos por diferentes vias: o almirante Ramos da Silva faleceu ontem com 74 anos de idade. Tinha sido incorporado na Escola Naval em 1969 como cadete de Marinha do Curso Baptista de Andrade e, depois de uma longa carreira naval, foi promovido a Vice-Almirante em 2010. Durante todo o seu percurso profissional este distinto oficial foi sempre muito estimado pela corporação. Desempenhou o cargo de Diretor-Geral do Instituto Hidrográfico entre 2010 e 2013. Reformou-se em 2017.

"O Navio... desarmado" apresenta sentidos pêsames à sua Família e a todos os seus amigos e camaradas.

Cerimónias fúnebres a 29 de Junho;

Velório: A partir das 10 00 hrs na Capela Mortuária da Igreja de Sto António de Oeiras;

Missa de corpo presente: Na mesma Capela pelas 16 30 hrs;

Cremação: No Centro Funerário de Cascais pelas 18 00 hrs.


sábado, 21 de junho de 2025

“Bamos Intão Lá Cum Deus …” , um historial do “Barco Moliceiro Lagunar”. Museu Marítimo de Ílhavo, 21 de Junho de 2025, às 16h00

Por Senos da Fonseca

O livro “Monografia do Barco Moliceiro – Dois Séculos de História”, que colocamos à disposição do leitor, não pretende ser um álbum recheado de abundantes registos fotográficos, repetidos ou muito semelhantes, do actual (última versão) barco moliceiro lagunar.

À recuperação dos restos que ainda existiam, foram-se juntando novas unidades (saídas das mãos prodigiosas dos últimos e incomparáveis mestres da enxó e do machado), cujo destino se reparte, hoje, entre a sua utilização em fins regateiros festivos (sempre empolgantes de apreciar nas singraduras de arrepiar em procura de “amuras”) ou, embora decapitados dos seus imponentes mastros e velas fartas, navegam carregados de turistas, vindos de todo o mundo, atraídos a neles embarcar pelos volteios dos já “acanhados” canais da cidade de Aveiro, cativados pela singularidade, esbelteza e atrevimento das formas (únicas) da embarcação, a que se junta a garridice e o atrevimento jocoso e brejeiro dos seus painéis brochados.

Não… este livro não se limita a destacar essa faceta, a mais atrativa. Este livro inclui todo o historial do “Barco Moliceiro Lagunar”, historial que ultrapassa já três séculos, sempre que possível, documentalmente  justificado.

Abordaremos, assim, os aspetos que a seguir se apontam e que, nos parecem fundamentais, para o seu verdadeiro conhecimento:

1- As razões que levaram a notável mestrança naval, lagunar, a criar uma embarcação capaz de responder à solicitação do “rústico da lavra” que, sonhava ser possível, apesar de tudo, fazer dos pauis encharcados e lodosos, ribeirinhos, terra esverdeada produtiva, capaz de dar pão;

2- O fixar a data do aparecimento, na Laguna, do primeiro tipo de barco especificamente voltado para a apanha, por arrasto, dos fundos lodosos da ria. Historiar a apanha das ervagens que, já secas, misturadas com o “escasso”, serviam para engordar e impermeabilizar os encharcados e arenosos terrenos da beirada lagunar, onde, até então, nem uma vergôntea enfezada medrava. Surribados, ano após ano, adoçaram-lhes o ventre, misturando-lhes o moliço e escasso, prontos a receberem a semente que os transformou em orla de jardins verdejantes;

3- A sistematização de todo o historial do “Moliço”, cujas referências benfazejas, vinham já do Séc. XIII;

4- A reconstituição da dimensão da recolha de moliços que logo se mostrou excessiva, crescendo exponencialmente, com efeitos perniciosos, destrutivos, da fauna lagunar. No livro, elabora-se um cálculo, o mais aproximado possível (exercício único apenas iniciado por Regalla no Séc. XIX) das quantidades anuais extraídas após 1883, até ao fim das safras moliceiras (1961). Pela dimensão dessa dádiva lagunar, constatamos da sua importância na criação de um mundo fértil que permitiu atrair e fixar gentes para esta zona, ao princípio desesperadamente hostil, desértica de gente e vida. Perceberemos como os valores da riqueza provinda da zona lagunar, pelo “moliço”, ombrearam com os do sal e com os provindos da actividade de pesca interior; 

5- A sistematização dos dois tipos de embarcações “Moliceiras”, Barco do Centro/Sul (MATOLA) e Barco do Norte lagunar, estudando-os (definindo-os), procurando as razões das suas diferenças, apresentando os planos geométricos de cada um deles, em 2D e 3D. No livro descreve-se todo o método de construção utilizado pela “mestrança da enxó e do machado” para produzir tão belos e singulares instrumentos de trabalho, guiados pelo célebre “pau-de-pontos”, onde, marca a marca, estão inseridas todas as medidas fundamentais da embarcação;

6- A referência inevitável à brochagem dos painéis (hoje pinturas de algum, assinalável, pendor artístico), ainda que feita de um modo completamente diferente do fim e intenção como tem sido abordada. O livro assume as razões que influenciaram o seu aparecimento na Laguna, a evolução, a “chança” na exibição festiva das embarcações, e a justificação da garridice, e até brejeirice, dos painéis. Porque, historicamente, não foram apenas os barcos Moliceiros de arrasto, as embarcações que colheram moliço da ria, o livro faz também uma revivência das Bateiras Erveiras, (tipos) incluindo destas os planos geométricos, ou construção, em 2D e 3D (oque julgamos do maior interesse para memória futura, integrados em Escolas, Museus, Centros de Estudo, etc.). Finalmente, damos conta, do modo como a consulta dos Registos de Embarcações na Capitania do Porto de Aveiro (e dos livros daqui perdidos, hoje depositados no Arquivo Geral da Marinha), dão uma perfeita e completa indicação (destruindo ideias tantas vezes, erradamente, assumidas) sobre a evolução da tipologia das embarcações e das quantidades, anualmente construídas, bem como do nome e origem dos Mestres Construtores, lagunares, sua importância e dimensão.

Pensamos, pois, deixar bem claro que o propósito da “Monografia do Barco Moliceiro” pretende ser o inédito e o mais completo registo histórico do instrumento de trabalho prodigioso – o Moliceiro. Apresentamo-lo como a embarcação singular, única, que permitiu ao homem lagunar tirar do fundo lodoso da ria, o estrume vegetal, logo espalhado sobre o areal solto, roto, por onde a água se esvaía facilmente, ano após ano, engordando-o e, simultaneamente, impermeabilizando-o. Foi o suficiente para nele reter a humidade doce, vinda da ria, ao tempo em que, refrescados pela brisa marinha estival, permitia o milagre de transformar lamaçais inóspitos em fecundas terras pintadas de um verde tenro e fresco a garantir ao homem lagunar, o pão e leite de que precisava. E se, na dorida labuta, o vento e a marola, na invernia, lhe destruíam ou corroíam obra feita, o homem lagunar voltava de novo ao princípio, esfalfando-se acurar as feridas provocadas pela ingratidão da natureza.

Como em nenhum outro lugar, foi tão escancaradamente notória a interacção do homem com o meio que o rodeava, e onde se pretendia instalar. Aqui, o homem tornou-se um verdadeiro fazedor de paisagens. Agarrado ao arado, com ele sulcou vezes sem fim a planura lassa, misturando-lhe o estrume marinho, estendendo-lhe a semente, para nela fazer surgir a clorofiladas gramíneas intensivamente deitadas à terra.

Nos raros intervalos da labuta, teve ainda tempo e disposição para, em dias assinaláveis, esquecer as agruras da ciclópica tarefa de demiurgo terreno a fazer um mundo novo, ao encontrar alegria e renovada esperança no transitório dos momentos festivos, assinalados, dos seus oragos protectores. Gente para quem, no dizer de Luís Magalhães, “a semana é de água e o domingo de terra”.


Nota: natural de Ílhavo, o autor é Engenheiro Mecânico e foi Oficial da Reserva Naval (5 CEORN 1962). Foi o vencedor do Prémio Almirante Sarmento Rodrigues em 2011, atribuído pela Academia de Marinha. Escritor, poeta, investigador e historiador, tem uma vastíssima obra publicada, designadamente sobre a historiografia da sua terra e das suas gentes, a construção naval das embarcações da Ria de Aveiro, a pesca do bacalhau e as  navegações marítimas portuguesas.

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Apresentação do livro "Era Abril e estive lá" em Aveiro (Biblioteca Municipal) 7JUN2025

 






Caseiro Marques frequentou e concluiu o 21º CFORN (1972), da Classe de Fuzileiros e serviu a Marinha durante onze anos, tendo atingido o posto de Primeiro-tenente.

Segundo o autor, este livro narra os acontecimentos por ele vividos ao longo da sua permanência na Armada, designadamente quando prestou serviço na Escola de Fuzileiros, durante o golpe de 25 de Abril, 25 de Novembro e nos anos subsequentes. Posteriormente, prestou serviço no Forte de Caxias, entre 1977 e 1980. Terminou a sua carreira militar em 1983, depois de prestar serviço durante três anos, na Chefia do Serviço de Justiça da Marinha.

Trata-se de um livro de memórias, que integra dezenas de documentos e fotografias relacionados com os acontecimentos relativos àquelas datas. Entre muitos outros factos, o livro relata a participação do autor na libertação dos presos políticos do Forte de Caxias no 25 de Abril.

O autor oferece-nos um relato de vida como que um diário. Sem pretensões nem artificialismos, desnuda-se perante os leitores – respeita-se a si próprio.

O autor não foi à guerra, mas ficou em contacto com uma parte dessa realidade. E no 25 de Abril foi confrontado com aquilo que nem sabia bem o que era, e muito menos, o que viria a ser. Foi então que esteve face à realidade dos presos políticos em Caxias.

Este livro dá-nos, de maneira singela, uma versão dos acontecimentos. As versões são interpretações da realidade. As interpretações vivem da formação integral de cada indivíduo. E a Democracia é o regime que, por definição, convive com as diferentes visões do mundo. Não temos de concordar com os outros, para os respeitarmos. Não podemos é tolerar os que, a coberto da democracia, desejam atentar contra ela!

Caseiro Marques realça a necessidade de apostar na defesa da Liberdade e da Democracia. Viver com Honra, de cara levantada.


Fonte: autor Dr. António Caseiro Marques / 1 TEN FZ RN

terça-feira, 3 de junho de 2025

CMG SES (Ref) João Carlos Filipe

 Tomamos conhecimento através do FB deste triste acontecimento:


"O Navio... desarmado" expressa o seu sentido pesar pelo falecimento do Comandante Carlos Filipe e envia os pêsames à sua Família e aos seus amigos e camaradas.