Recebido (correio electrónico) do CALM António Cabral o seguinte texto, com solicitação de publicação:
"Ao
"O Navio… desarmado"
A propósito da reforma de que o MDN se vangloria. Alienação de infra-estruturas.
Camaradas de armas, dos 3 ramos, têm criticado ao longo dos tempos uma boa parte daquilo que, pelo menos desde 1990, os sucessivos MDN apresentaram como reformas das FA. Não as comento. A meu ver muitas das decisões ministeriais dificilmente se podem encaixar na palavra reformas, pois reformas não são, para mim, apenas poupanças nos custos, alienações de imóveis, cortes cegos, definições de meios sem ter em conta a posição geográfica de Portugal. Adiante.
Nos meus zappings pelos OCS nacionais via NET, reparei no Jornal de Notícias de 27 deste mês, na notícia relatando que o Governo vai vender 60 imóveis militares. Artigo que, como seria de esperar, é dado à estampa pelo jornalista Carlos Varela.
Para não variar, este é mais um artigo que parece ser outro frete ao actual MDN. Como no passado foi acontecendo, quase sempre, com este e outros jornalistas. A história à volta dos jornalistas “acreditados junto do MDN”.
Todos nós devemos ser avaliados pelas acções e não pelo que parece ou é anunciado, ou porque simpatizam ou não connosco.
Refiro isto para salientar que me desgosta a superficialidade (propositada?) da generalidade dos artigos sobre reformas de FA, parecendo-me que este não foge à regra.
Quero salientar que, quando se escreve - "Vai Vender” - seria a meu ver intelectualmente mais honesto escrever - “o governo tenciona vender” - frase que devia ter logo colada outra frase - “naturalmente que a concretização desta intenção governamental muito dependerá do contexto económico e de investimento verificados”.
É que, creio, é um pouco diferente espalhar mais adiante pelo texto a questão económica, depois das loas e intenções do MDN. Marketing.
Porque o que fica, ou melhor, parece-me legítimo poder concluir, que se está a fazer de facto mais um frete ao locatário do 7º piso do edificio cor-de-rosa ao Restelo.
Um incauto civil poderá dizer - "ora aqui está um ministro reformador, que vai acabar com a pouca vergonha nas FA, vender dezenas de quartéis inúteis, pôr ordem nas FA”.
Mas, na minha opinião, se muitas infra-estruturas, muitos imóveis, há muitos anos que deviam ter saído da esfera do MDN, a realidade é que apesar das loas do senhor dr. Paulo Portas e do PM parece-me difícil que o mercado venha a satisfazer as projeções do MDN. Intenções, marketing carunchoso.
Além do mais, fica a questão das avaliações do que existe, uma nebulosa de há anos a que os senhores jornalistas acreditados nunca se dedicam. Pudera.
Acresce que, quando no artigo o jornalista refere que esta LPM é muito diferente das anteriores no que respeita à alienação de imóveis, diz ele, que antes, o fruto disso foi para o fundo de pensões o qual este governo extinguiu. Fica, assim, na essência, mais uma superficialidade e uma loa ao MDN e sua secretária de Estado.
Porque o senhor jornalista, claro que não lhe interessa, podia ao menos por uma vez procurar aprofundar o tema alienações versus fundo de pensões, e dizer aos portugueses, desde 1990, quais os imóveis e infra-estruturas das FA que foram alienados, vendidos, e os valores obtidos por cada um, e quanto desses montantes foram para o fundo de pensões (por ano civil), e quantos milhões ficaram directamente no Ministério das Finanças.
Enunciado como está no artigo, não passa de uma coisa feia.
O senhor jornalista até me podia perguntar, porque não faz o senhor almirante essa averiguação? Simples, porque não tenho os elementos, que deveriam estar no MDN e no EMGFA, e que em cada ramo deviam igualmente saber quando foram alienados, e tinham a obrigação de ter obtido os valores oficiais da venda, e que partes anualmente foram para o fundo de pensões, e o que ficou no MF. Ao longo dos anos tudo isso devia ter sido escalpelizado em CCEM, porque designadamente se tratava de um assunto delicado a mexer com o pessoal.
Ah, dirão alguns, mas isso é classificado, não pode vir a público, não pode ser. Pois eu direi, aposto que não existe para poder ser publicamente consultada, a discriminação exaustiva, por ano civil, do que foi de facto realizado com as alienações desde 1990. Direi que é uma vergonha as sucessivas chefias militares sempre terem pactuado com as pouca vergonhas ministeriais, no que a este assunto se refere. Fundo de pensões? O pessoal? Logo se vê.
Será que estou totalmente equivocado?
António Cabral, cAlmirante, reformado
(Chapéus há muitos)"