Este é um tema sempre interessante, para os que como eu entendem que esta área de múltiplas componentes, em que uma apenas é militar, é da maior importância para um País que se quer em liberdade e equilibrado. É também interessante para os que, com muitas loas, sempre desprezam o assunto, - "essa coisa dos militares". E depois, ainda existem os militares que criticam os governos, sobretudo os que não são da sua cor. Porque quando são da sua cor, alguns esquecem-se de apontar o desprezo concreto com que determinada governação foi contribuindo para o estado em que estamos. Sim, porque as coisas não se degradam em poucas semanas, meses, ou mesmo dois anos.
Sou dos que tenho criticado os governos, porventura nem sempre da melhor forma, mas não o faço por uma questão de cor política. Há muito tempo venho olhando apenas aos comportamentos praticados (não aos anúncios), ás realidades concretas, e resultados práticos das sucessivas governações. Um pequeno exemplo, as sucessivas violações de legislação em vigor. Os últimos quatro anos de governação não deixam saudades no âmbito da defesa nacional.
Na comunicação social aparecem periodicamente artigos de tom variado, e que presumo, a maioria dos militares conhece.
Ultimamente tenho-me "deleitado" a reler documentos oficiais e artigos do tempo dos ministros da defesa nacional Fernando Nogueira e António Vitorino. Vários da sua própria autoria, incluindo discursos proferidos no IDN. Tenho intervalado essas leituras com algumas outras "pérolas" mais recentes que, agora relidas, ainda acho mais "graça"!!!!!.
É o caso de um artigo do deputado do PSD António Prôa, que li num jornal, em 24/2/2015, e em que ele tece loas várias à - fúria reformadora dos actuais governo e MDN (a expressão é minha).
Em síntese, o senhor deputado defende - A Defesa Nacional deve estar ao serviço dos portugueses e do interesse de Portugal. O tempo das Forças Armadas como instrumento para exercício de vaidades acabou. Era indispensável romper com um passado em que faltou coragem a uns e sobrou comodismo a outros. Por isso o passado está nervoso e desconfortável. Porque se recusa a olhar para o futuro - o que não deixa de ser interessante. E salienta que o governo fez profundas reformas!!! E refere ainda o amplo consenso e empenho das chefias militares, além de lembrar o HFAR, os estabelecimentos de ensino, os estaleiros de Viana do Castelo!!!! Termina o artigo assim - Neste período, e neste sector, como em muitos outros, o Governo escolheu fazer. Melhor, seria difícil. Quase apetece bater palmas.
Presumo que o senhor deputado gostasse um dia de ser MDN. Imagino-o até em interessantes debates com um seu colega de outro partido, também desejoso (suponho) de ser um dia MDN, o senhor deputado do PS Perestelo que já fez estágio em secretário da defesa. Dariam ambos, certamente, excelentes MDN.
Mas, para terminar estas considerações genéricas, que mais não pretendem do que salientar que, ao longo do tempo, políticos e governantes e também chefias militares, poucos são os que ficaram bem na "fotografia defesa nacional", pela minha parte, e olhando ao entusiasmo do deputado Prôa, aguardarei para ver os excelentes resultados da recente reforma do ministro Aguiar Branco quanto aos estaleiros de Viana do Castelo, designadamente a respectiva produção e inerentes consequências para a Marinha. Ando cheio de curiosidade.
Além disso, estou certo que o futuro governo (tenha a cor que tiver) não vai deixar de olhar para a defesa nacional ainda com mais entusiasmo com que o actual o fez (!?!). Vamos aguardar a passagem do tempo. Vamos aguardar pelas coisas concretas. Vamos aguardar pelas novas energias.
António Cabral, cAlmirante, reformado
(chapéus há muitos)