segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Ainda sobre os Comandos

Sobre a tragédia ocorrida recentemente durante o 127º curso de comandos ouvi/ li posições do MDN, de porta-voz do Exército, da AOFA, de militares já fora do activo, de jornalistas. E as barbaridades de certos políticos (??) que pensam ainda estar no tempo em que os progenitores e amigos assaltavam. Creio que houve reportagens nas TV, que não vi.

Li - "não são aceitáveis mortes em instrução”. A responsabilidade pelo que sucedeu pode ser, certamente, atribuída a mais do que um factor, circunstância. 
Tal como nos acidentes nas estradas ou no mar, as tragédias ocorrem porque se somaram num dado momento várias componentes que, isoladamente, só por si, provavelmente não causariam o despiste na estrada ou o virar da embarcação.
Mas só em Portugal é que subsiste esta tonteria - "ah, a estrada estava molhada" - ou - "ah, houve um golpe de mar".
Adaptar por exemplo a velocidade do veículo ás condições meteorológicas e ao tipo de carga transportada,…………. ah, isso não interessa para nada.
No plano do “achismo”, a única coisa que acho de facto é que são inaceitáveis as mortes e que é indesmentível que certas profissões tem inerente o risco de vida.
Do que me apercebi posteriormente sobre a tragédia, saltou-me também à vista um artigo do jornalista Manuel Loff de 17 de Setembro passado, publicado no jornal Público.
Face ao que se conhece pelos media, a que é preciso dar um desconto enorme, ENORME, o parâmetro médico é capaz de ter uma elevada cota de responsabilidade no caso. 
Como cidadão gostava de ver esclarecido, publicamente, tudo acerca das inspeções médicas, para ingresso no Exército, para seleção para tropas especiais, que meios humanos com adequada e específica preparação e meios logísticos existiam em apoio directo ao curso, e que estrutura estava preparada para acorrer a situações inesperadas. Que alertas testados com o INEM, por exemplo. Em Alcochete e no Montijo, existem ambulâncias. De Alcochete ou do Montijo ao campo de tiro leva-se muito pouco tempo de veículo (sei do que estou a falar). 


Existe a Base Aérea do Montijo, onde estão sediados os helicópteros de busca e salvamento que, tanto quanto julgo, podem levar doentes em situação crítica a hospitais. Creio também que o INEM tem helicóptero.
Ainda no plano da saúde, se uma doença congénita é difícil de detectar, pela experiência que tenho com familiares, há exames que detectam por exemplo facilmente certos problemas nos vasos sanguíneos.
Portanto, no plano saúde/médico creio que será perfeitamente possível identificar causas e daí tirar conclusões e responsabilidades concretas.
Avançar, apenas no plano teórico e de forma decente e civilizada com a remota possibilidade de eventuais usos de estimulantes, não é coisa que me ofenda nem choca, exactamente porque o que vi escrito estava num plano de ponderação respeitosa.
Depois, e ainda no plano dos cuidados médicos, o que veio a público denunciado quanto ao estado do Hospital das Forças Armadas, sem urgências e etc, é bem revelador do estado deplorável a que Portugal chegou em certas áreas, neste caso, na Instituição Militar. Mas, para alguns dos que se indignam agora muito, será bom lembrar que nada da lastimável situação foi concebida e executada apenas pelo anterior MDN Aguiar hífen Branco. 
E, já agora, alguém com os pés na terra, pensa possível que neste País cada vez mais de faz de conta, alguma vez esse homem será responsabilizado, a sério? 

Foi trabalho político, e certamente baseado em muita assessoria e documentação assinada naquele ministério por responsáveis civis e militares. E houve visitas e inaugurações. E pelas fotografias, sempre todos sorridentes.
Olhando ao artigo já supra mencionado, de Manuel Loff, o jornalista enxofra-se muito com a apontada remota possibilidade de usos de estimulantes. Como não tenho a certeza a que coisa concreta se refere, direi apenas que o que vi escrito pelo MGeneral Carlos Branco nada me chocou exactamente porque me pareceu como acima descrevi.
Quanto ao resto do artigo de Loff, em que não me espanta o estilo dada a pessoa, no que se refere a fanfarronices e ao elencar de casos passados e ao apontar de páginas oficiais de certas instituições, creio que lhe assiste uma boa parte da razão nos comentários.
E há sobretudo uma coisa em que com ele concordo, quando escreve que - paga para ver - quanto à questão do apuramento de tudo até ás últimas consequências.
Se apreciei e aprecio as posições equilibradas que se ouviram sobre este muito triste assunto, a realidade é que o histórico deixa imensas incertezas.
E quando alguns brandem a imagem dos escuteiros nem reparam que, parece-me, se colocam num patamar equivalente de sentido oposto ao daqueles e daquelas que irresponsavelmente clamam pelo fim dos Comandos e, no intimo, certamente do Exército e das Forças Armadas.
Parece-me muito avisado e justamente referido o que adiante coloco, porque em minha opinião também isso deve fazer parte da vida contemporânea sem que signifique beliscar valores fundamentais e sem perder de vista a necessidade de preservação de instituições - ……."Rever permanentemente decisões já tomadas, seguir num destino diferente, duvidar das soluções actuais, enfrentar problemas novos são actividades obrigatórias"……..
Pago também para ver como tudo se vai passar. 

É que se vier a acontecer como anteriormente, com conclusões reservadas, inconclusivas, sem explicação concreta ás famílias dos falecidos, (que indemnizações?) etc, as garantias de peito feito do PR do PM e do MDN irão aumentar a certeza de que gradualmente caminhamos para o estado lamentável dos vários países dentro de Portugal. O palaciano e das mesuras, e o da dura realidade, como no passado não muito longínquo.

António Cabral

cAlmirante, reformado
(chapéus há muitos)

2 comentários:

  1. Quanto à actual situação do HFAR, seja ela qual for, resulta de uma evolução relativamente longa que atravessou 3 legislaturas. Nos idos de 2005 governava o XVII Governo Constitucional, cujo programa referia

    "
    Reforma do Sistema de Saúde Militar, de modo a assegurar a continuidade da qualidade dos serviços e garantindo articulação funcional e optimização de meios, em especial com o Serviço Nacional de Saúde, com serviços de guarnição e utilização comuns e especial atenção à medicina militar e à sua capacidade de participação em missões internacionais"


    É este Governo que toma a decisão de criação do HFAR, acompanhada até ao fim da legislatura. Quando esta termina, toma posse o XVIII Governo Constitucional em cujo programa se pode ler

    "
    Pôr em prática a Reestruturação da Estrutura Superior da Defesa Nacional, concretizando a legislação recentemente aprovada, nomeadamente, a Lei de Defesa Nacional e a Lei de Bases das Forças Armadas. Neste quadro, assumem-se, ainda, como prioridades: a Reforma do Sistema de Saúde Militar e instalação do Hospital das Forças Armadas; a consolidação da empresarialização do Arsenal do Alfeite e a extinção da Manutenção Militar e das Oficinas Gerais de Fardamento;"


    Claramente em acordo com a orientação anterior e mesmo definindo o HFAR como uma prioridade, a legislatura acabou por ser interrompida antes de decorrido o seu período normal, e quando o XIX Governo Constitucional assumiu as responsabilidades da governação, podia-se ler, quanto a este assunto, no seu programa:

    "
    Tomando como referência o que está disposto a este respeito no Memorando de Entendimento, concretizar a reforma do sistema de saúde militar, mas garantindo um apoio de qualidade aos seus utentes e um aproveitamento completo da capacidade instalada;"


    Ainda aqui, a continuação da orientação anterior, embora referida a decisões anteriores.

    Não é difícil estar de acordo com a opinião de que a actual situação não é da responsabilidade exclusiva do anterior MDN.

    Haja louros ou recriminações, seria interessante a sua distribuição com equidade.

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  2. Completamente de acordo. Salvo melhor opinião, o maior problema deste meu/ nosso desgraçado País é que nunca mais traçamos rumo definitivo consensual. Passamos a vida na mudança de cor e gritaria ou ausência dela consoante a cor, mantendo-se os problemas.
    António Cabral

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