ESPECIALISTAS, RESSABIADOS,
e os BÉBÉS, chegam no BICO da CEGONHA ?
Vai por aí uma certa tormenta a propósito das propostas de alterações a certa legislação para dar poderes acrescidos ao CEMGFA.
Nos bastidores, ressabiados do passado, prepararam o que agora todos os da mesma linha declaram perfeitamente inofensivo. Poucos o declaram directamente, pois basta-lhes os OCS amigos e certas criaturas dos partidos que se têm especializado em parvoíces as quais ao longo do tempo são maquiavelicamente aperfeiçoadas pelos outros.
Nos OCS, camaradas de armas mais velhos têm apresentado os seus pontos de vista quanto ao que da parte do governo é pretendido concretizar.
Da parte do governo, e concretamente do ministro da tutela e incluindo a sua triste prestação na AR, ouvem-se coisas que quase nos parecem querer convencer de que afinal os bebés chegam de Paris no bico da cegonha.
Da parte do Governo, e concretamente do Primeiro Ministro, a postura habitual, lamentável, como se nada fosse com ele. Silêncio tumular.
O inquilino em Belém faz bem em assistir tranquilo ao salutar desenrolar da democracia.
Dos oficiosos apoiantes da geringonça não formal apareceram entrevista e referências a estudos no próprio dia de início do debate (??) do tema na AR. A máquina de propaganda da geringonça está bem oleada e preparada.
Na AR, assisti a um debate onde, com raras excepções, as intervenções foram de uma extrema pobreza em todas as vertentes.
Não sou especialista como alguns "War experts", e menos ainda se me comparassem (o que me ofenderia) a empreendedores de "certa agricultura". Mas, garantidamente, sei alguma coisinha destas coisas, pois sobre elas me debruço e estudo, estou atento como sempre estive a quem sabe mais que eu e, também por razões de carreira e designadamente pela relevante convivência durante anos com quem integrava forças armadas dos EUA, França, Holanda, Noruega e Bélgica. Aproveitei bem esses tempos passados para ponderar sobre essas Forças Armadas e países, sobre essas sociedades.
Isto dito, confesso que não comungo de todos os argumentos por parte de alguns camaradas de armas mais velhos, mas comungo da essência do que têm colocado à vista de todos os portugueses.
A desfaçatez de certas criaturas vai ao ponto de se declararem surpreendidos com aquilo a que chamam alarido.
Há para mim dois pontos chave :
> Que defesa nacional para o nosso país e subsequente pilar militar, olhando ao que está a acontecer e, apesar de cada vez mais incertezas, ponderar o que parece poder ocorrer futuramente sendo certo que as ameaças são globais e exigem certamente respostas coordenadas e centralizadas;
> a questão da governamentalização das Forças Armadas.
Volto por agora apenas à governamentalização, por razões diversas, além de que me recordo onde estava na altura de certos eventos e ao que assisti ligeiramente à distância.
A coisa é simples. Até certa altura da 2ª maioria absoluta de Cavaco Silva, o processo para nomeação dos Chefes de Estado-Maior da Marinha, Exército e Força Aérea que a legislação então consagrava tinha as seguintes fases:
> o ramo em causa apresentava uma lista de 3 nomes ao ministro da defesa nacional, lista onde normalmente estava o vice-chefe da altura;
> com essa lista o ministro debatia o assunto com o PM, e em conselho de ministros tomavam uma decisão, e apresentavam um nome ao Presidente da República que, anuindo, marcava a data de posse do futuro chefe desse ramo.
O processo era bom, ou era mau? Não sei, mas tinha uma característica para mim muito importante, não se iniciava com interferência política. Os militares juram perante a Bandeira Nacional.
Acontece que nesse período que acima indico, e para enorme surpresa dos então PM e MDN, na lista de um ramo à beira de ter o seu chefe a terminar o mandato, não aparecia um nome que se desconfiava ser o desejado pelos políticos. Não se desconfiava, tinha-se a certeza, aliás o brado que a surpresa deu confirmou-o, e a contra gosto lá nomearam um dos que estava na lista. Mas ficaram com uma azia enorme. A vingança não se fez esperar. Além de que tiveram de arranjar um "bombom" para o não premiado.
Portanto, nunca mais, toca de alterar a lei. E à pala da nova lei, aprovada com os entusiásticos aplausos e gáudio do PS que, repito, sempre maquiavelicamente aperfeiçoa as bacoradas do PSD, os MDN passaram a chamar todos os oficiais generais de 3 estrelas de um dado ramo, conversando a sós com cada um. Escolhem então um nome e o Presidente dá posse. Como qualquer português comum percebe, nada de governamentalização existe em tal processo de nomeação dos chefes militares dos ramos das Forças Armadas.
Olhando agora ao caso do CEMGFA. Até uma dada altura da nossa história recente, e no Estado Novo foi ainda pior, o CEMGFA era sempre um general do Exército (houve uma excepção inicial, Força Aérea). Na nossa actual República é a partir de 1 de Fevereiro de 1994 que se começa a cumprir a norma NÃO ESCRITA de que o CEMGFA seja por rotação entre oficiais oriundos dos três ramos das Forças Armadas.
Indo agora ao presente, e ao alarido citado por certa criatura, a concretização da concentração desmesurada de poderes no CEMGFA obviamente que ainda mais governamentalizado tornará o processo de escolha do CEMGFA e, em consequência, ainda mais os dos CEM's, dado que para estes há uma prévia consulta ao CEMGFA. Até a minha idosa vizinha na aldeia percebe isto, e ela até se ri da oratória que uns quantos empregam sempre assumindo que para tontos estão a falar - ajustar competências a responsabilidades,…. limita-se a prever de forma simples e operativa, quem nomeia, quem propõe e quem deve ser ouvido! Ah, e claro, a nomeação é do Presidente da República.
Usando a fraseologia de certo especialista, eu como ignorante destas coisas é que estou a distorcer tudo isto. Enfim.
António Cabral
cAlmirante, reformado
(marrevoltado.blogspot.pt)