Recebido (correio electrónico) do Calm António Cabral o seguinte texto, com solicitação de publicação:
"Ao
"O Navio…..Desarmado"
Faleceu o Almirante Vítor Crespo. Descansa finalmente.
Como acontece muitas vezes, vai ser exaltado por muitos, incluindo vários dos seus detractores em vida. Vai continuar a ser execrado por outros tantos.
Vai haver outros pantomineiros da moda que o celebram mais talvez para dizerem “ah, eu também estive lá”.
Pela minha parte, não tenho o conhecimento rigoroso para, por exemplo, opinar sobre a fase da sua vida em que foi Alto Comissário em Moçambique.
A descolonização que uns certos senhores que se outorgam donos do País qualificam de exemplar, foi um passo que foi dado muito, mas muito tardiamente na nossa história. Mas exemplar, dá vontade de rir.
Duvido muito, que o Almirante Crespo alguma vez tenha tido responsabilidades criticáveis nesse processo.
Também não me posso pronunciar sobre a sua curta fase de ministro, em 1975, nem sobre a sua actividade política até 1982.
Mas recordo este Homem com respeito e consideração, e em primeiro lugar porque foi meu respeitado professor.
Recordo-o como um cidadão digno, afável no trato, com espírito de humor, e um militar muito inteligente calmo e nada pesporrente, contrariamente a outros que também bem conheci nessa altura, e tinham então o mesmo posto, o de 1º Tenente.
O então 1º Tenente Vítor Crespo, tinha por vezes um ar um pouco despistado, não foi uma nem duas as súbitas trocas entre o giz e o cigarro.
Uma das histórias que bem recordo, foi aquela de uma manhã em que, ao entrar bem cedo na Escola Naval, o homem que estava à entrada não reconheceu o “paisano” que se preparava para aceder ao edifício, e pediu-lhe a identificação.
Se outro fosse, tinha havido berreiro, gesticular, e participação; esse chegou bem longe. O meu antigo professor, mostrou o BI, entrou, foi fardar-se, e veio dar-nos aula fardado de 3B, o uniforme de saída e não o uniforme de serviço interno. No intervalo das aulas, nossas e seguintes, durante a manhã e até à hora de almoço, passeou-se no átrio para trás e para a frente, fumando em frente ao porteiro, nada dizendo.
Salvo melhor opinião, esta historieta, diz qualquer coisa.
O Almirante Crespo foi um bom profissional, um excelente Artilheiro, sério e honesto, e tenho-o como estudioso e de elevada craveira intelectual. Um cidadão esclarecido, e nada conformado.
Ao longo dos anos troquei com ele muito breves palavras, a maioria dentro do CMN. Foi aqui que o encontrei a última vez.
Que descanse em paz.
António Cabral
cAlmirante, reformado
(Chapéus há muitos - marrevoltado.blogspot.pt)"