1- As razões que levaram a notável mestrança naval, lagunar, a
criar uma embarcação capaz de responder à solicitação do “rústico da lavra” que,
sonhava ser possível, apesar de tudo, fazer dos pauis encharcados e lodosos,
ribeirinhos, terra esverdeada produtiva, capaz de dar pão;
2- O fixar a data do aparecimento, na Laguna, do primeiro tipo
de barco especificamente voltado para a apanha, por arrasto, dos fundos lodosos
da ria. Historiar a apanha das ervagens que, já secas, misturadas com o
“escasso”, serviam para engordar e impermeabilizar os encharcados e arenosos terrenos da beirada lagunar, onde, até então, nem uma
vergôntea enfezada medrava. Surribados, ano após ano, adoçaram-lhes o ventre,
misturando-lhes o moliço e escasso, prontos a receberem a semente que os
transformou em orla de jardins verdejantes;
3- A
sistematização de todo o historial do “Moliço”, cujas referências benfazejas,
vinham já do Séc. XIII;
4- A reconstituição da dimensão da recolha de moliços que logo
se mostrou excessiva, crescendo exponencialmente, com efeitos perniciosos,
destrutivos, da fauna lagunar. No livro, elabora-se um cálculo, o mais
aproximado possível (exercício único apenas iniciado por Regalla no Séc. XIX) das
quantidades anuais extraídas após 1883, até ao fim das safras moliceiras
(1961). Pela dimensão dessa dádiva lagunar, constatamos da sua importância na
criação de um mundo fértil que permitiu atrair e fixar gentes para esta zona,
ao princípio desesperadamente hostil, desértica de gente e vida. Perceberemos
como os valores da riqueza provinda da zona lagunar, pelo “moliço”, ombrearam
com os do sal e com os provindos da actividade de pesca interior;
5- A
sistematização dos dois tipos de embarcações “Moliceiras”, Barco do Centro/Sul
(MATOLA) e Barco do Norte lagunar, estudando-os (definindo-os), procurando as
razões das suas diferenças, apresentando os planos geométricos de cada um
deles, em 2D e 3D. No livro descreve-se todo o método de construção utilizado
pela “mestrança da enxó e do machado” para produzir tão belos e singulares
instrumentos de trabalho, guiados pelo célebre
“pau-de-pontos”, onde, marca a marca, estão inseridas todas as medidas
fundamentais da embarcação;
6- A referência inevitável à brochagem dos painéis (hoje
pinturas de algum, assinalável, pendor artístico), ainda que feita de um modo
completamente diferente do fim e intenção como tem sido abordada. O livro
assume as razões que influenciaram o seu aparecimento na Laguna, a evolução, a
“chança” na exibição festiva das embarcações, e a justificação da garridice, e
até brejeirice, dos painéis. Porque, historicamente, não foram apenas os barcos
Moliceiros de arrasto, as embarcações que colheram moliço da ria, o livro faz
também uma revivência das Bateiras Erveiras, (tipos) incluindo destas os planos
geométricos, ou construção, em 2D e 3D (oque julgamos do maior interesse para
memória futura, integrados em Escolas, Museus, Centros de Estudo, etc.).
Finalmente, damos conta, do modo como a consulta dos Registos de Embarcações na
Capitania do Porto de Aveiro (e dos livros daqui perdidos, hoje depositados no Arquivo
Geral da Marinha), dão uma perfeita e completa indicação (destruindo ideias
tantas vezes, erradamente, assumidas) sobre a evolução da tipologia das
embarcações e das quantidades, anualmente construídas, bem como do nome e
origem dos Mestres Construtores, lagunares, sua importância e dimensão.
Pensamos,
pois, deixar bem claro que o propósito da “Monografia do Barco Moliceiro”
pretende ser o inédito e o mais completo registo histórico do instrumento de
trabalho prodigioso – o Moliceiro. Apresentamo-lo como a embarcação singular,
única, que permitiu ao homem lagunar tirar do fundo lodoso da ria, o estrume
vegetal, logo espalhado sobre o areal solto, roto, por onde a água se esvaía
facilmente, ano após ano, engordando-o e, simultaneamente, impermeabilizando-o.
Foi o suficiente para nele reter a humidade doce, vinda da ria, ao tempo em
que, refrescados pela brisa marinha estival, permitia o milagre de transformar
lamaçais inóspitos em fecundas terras pintadas de um verde tenro e fresco a
garantir ao homem lagunar, o pão e leite de que precisava. E se, na dorida
labuta, o vento e a marola, na invernia, lhe destruíam ou corroíam obra feita,
o homem lagunar voltava de novo ao princípio, esfalfando-se acurar as
feridas provocadas pela ingratidão da natureza.
Como em nenhum outro lugar, foi tão escancaradamente notória a
interacção do homem com o meio que o rodeava, e onde se pretendia instalar.
Aqui, o homem tornou-se um verdadeiro fazedor de paisagens. Agarrado ao arado,
com ele sulcou vezes sem fim a planura lassa, misturando-lhe o estrume marinho,
estendendo-lhe a semente, para nela fazer surgir a clorofiladas gramíneas
intensivamente deitadas à terra.
Nos raros intervalos da labuta, teve ainda tempo e disposição
para, em dias assinaláveis, esquecer as agruras da ciclópica tarefa de demiurgo
terreno a fazer um mundo novo, ao encontrar alegria e renovada esperança no
transitório dos momentos festivos, assinalados, dos seus oragos protectores.
Gente para quem, no dizer de Luís Magalhães, “a semana é de água e o domingo de
terra”.
Nota: natural de Ílhavo, o autor é Engenheiro Mecânico e foi Oficial da Reserva Naval (5 CEORN 1962). Foi o vencedor do Prémio Almirante Sarmento Rodrigues em 2011, atribuído pela Academia de Marinha. Escritor, poeta, investigador e historiador, tem uma vastíssima obra publicada, designadamente sobre a historiografia da sua terra e das suas gentes, a construção naval das embarcações da Ria de Aveiro, a pesca do bacalhau e as navegações marítimas portuguesas.