quarta-feira, 28 de julho de 2021

O Arsenal do Alfeite, a Arsenal do Alfeite S.A. e a Marinha - Que Futuro?

 A Comissão Permanente de Defesa Nacional da Assembleia da República reuniu-se no início de Julho com a presença do MDN, num importante encontro em que a Marinha ocupou parte significativa das intervenções, expressando fortes preocupações com a redução da operacionalidade dos navios e com as crescentes dificuldades na sua manutenção, intimamente relacionadas com a situação da Arsenal do Alfeite, S.A.. Esta situação terá possivelmente concorrido para o abate do Bérrio e a consequente limitação resultante da indisponibilidade de um navio reabastecedor.

O MDN anunciou a decisão de construção de 6 patrulhas oceânicos e considerou a questão da AA S.A. matéria importantíssima, reconhecendo que os problemas persistem, mas que as bases da sua resolução já existem, tendo-se registado ‘avanços significativos‘ durante o primeiro semestre, nomeadamente a obtenção da ‘estabilização financeira’. O Ministro anunciou também  a criação da Academia da Arsenal do Alfeite, financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência, um possível contrato com a Marinha de Marrocos e a construção de uma ‘plataforma polivalente vocacionada para a logística, a ciência e a defesa do ambiente’ e mencionou a recente publicação do primeiro relatório da Comissão de Auditoria de Preços, onde se prevê um aumento do preço da mão-de-obra da AA S.A., factor preponderante para atingir o equilíbrio financeiro, prevendo-se um resultado positivo já no final de 2021, e o seu reforço em 2022.

O Alm Mendes Calado, CEMA, em finais de Março, durante a cerimónia de tomada de posse do Superintendente do Material, afirmou que ‘a Marinha reconhece a importância decisiva para o cumprimento da sua missão de um Arsenal do Alfeite perfeitamente sincronizado com as suas necessidades e prioridades de manutenção’, e salientou a necessidade de melhoria do ‘alinhamento da matriz de interesses das duas organizações’. O CEMA referiu também a necessidade de uma ‘robusta’ relação, bem como ‘um alinhamento estratégico’ adequado entre a AA S.A. e a Direcção de Navios, salientando como ‘relevante instrumento de diálogo e aproximação’ o Grupo de Coordenação e Alinhamento Estratégico Marinha - Arsenal do Alfeite (GCAEMA)’, que submeteu o respectivo relatório em Janeiro.

O DL 33/2009 de 5 de Fevereiro, que constituiu a Arsenal do Alfeite, S.A, reafirma a importância da Marinha para a soberania do Estado Português, e concede-lhe prioridade na aquisição de serviços. E, no seu Artigo 5º (Objecto) refere (ponto 1) que ‘A sociedade tem por objecto a prestação de serviços que se subsumem na actividade de interesse económico geral de construção, manutenção e reparação de navios, sistemas de armamento e de equipamentos militares e de segurança da Marinha, incluindo a prossecução de objectivos essenciais e vitais para a segurança nacional.’ E, no Anexo III (Bases da concessão), Base V (Princípios aplicáveis às relações com a Marinha) estabelece que a concessionária se obriga ‘a garantir a satisfação das necessidades de manutenção programada e dar prioridade às necessidades de manutenção urgentes dos sistemas de armas e demais apoio dos navios da Armada.’

Trata-se portanto de questão relacionada com a própria soberania, difícil de sobrevalorizar. Governo, Assembleia da República, Marinha e AA S.A, estão nisso solidamente de acordo e bem assim, na ‘decisiva importância’ do papel que a AA S.A. desempenha. No entanto, com 12 anos já decorridos desde a extinção do Arsenal do Alfeite (1), por, alegadamente, este carecer de ‘uma renovação profunda’ e se reconhecer que ‘o modelo vigente e enquadramento orgânico do Arsenal não tem condições para se regenerar’, encontramos também, em todos, significativas e iniludíveis preocupações.

No seu conjunto, as preocupações expressas na Comissão de Defesa, o reconhecimento pelo MDN da existência de persistentes problemas, as afirmações do CEMA relativas à necessidade de sincronização e alinhamento de interesses e o relatório do GCAEMA (sobre coordenação e alinhamento entre Marinha e AA !?), são o reconhecimento de que muito, mesmo muito, estará profundamente errado, o que não nos surpreende após 12 anos de continuada degradação. Estes sinais são extremamente preocupantes, na medida em que, enquanto se procura alinhar posições, sincronizar, afinar, e ultrapassar dificuldades, as já conhecidas e aquelas que surgirão pelo caminho, os sistemas não atingirão os equilíbrios dinâmicos que lhes permitam funcionar harmoniosamente, a manutenção dos navios tem hiatos, definha, e, com ela, os próprios navios, incluindo aqueles que venham a ser construídos ou adquiridos. Resulta daqui que as missões ou não são possíveis ou cumprem-se sem a eficácia e a eficiência desejadas, os objectivos definidos não são atingidos, o moral das guarnições e dos organismos que compõem a Marinha é afectado negativamente, e a Marinha vê-se impossibilitada de dar o concurso que lhe compete na defesa da soberania de Portugal e dos superiores interesses da Nação.

Apesar de apenas garantir a ausência de problemas salariais no estaleiro até ao fim do ano, o MDN, coloca-se numa posição optimista, quando refere os avanços significativos obtidos, destaca a ‘estabilização financeira’, esperançado em que a revisão do preço da mão-de-obra em alta a isso conduza. Por outras palavras, a estabilização financeira é o grande objectivo das medidas a aplicar à AA S.A.. Por outro lado, a Marinha pretende ’a diminuição do elevado défice de manutenção das unidades navais’, e o mesmo Ministro, quando responde a questões da manutenção dos navios, afirma que não é tarefa da tutela, sendo encargo da Marinha. Parece difícil que se venha a verificar uma sincronização e alinhamento de interesses.

Nem o percurso da AA S.A. até agora parece ter sido capaz de sincronização ou alinhamento com a Marinha, nem as medidas tomadas sugerem que tal venha a acontecer a breve trecho, levantando uma dúvida legítima relativamente à premissa de que era o ‘enquadramento orgânico do Arsenal’ que impedia a regeneração. Parece-nos, pelo contrário, que em vez de atacar os problemas do Arsenal do Alfeite (que, naturalmente, os tinha e não despiciendos) o novo enquadramento os veio agravar. E o custo daí resultante está e continuará a ser suportado precisamente pelo sector para o qual todo o sistema existe e deveria ter sido preservado dos solavancos organizacionais, os navios, que assim foram menosprezados. A transição para o novo enquadramento, decididamente, falhou e as perspectivas futuras continuam incertas.

Pelo conhecimento que tem da Marinha que comanda, a avaliação do CEMA merece-nos um crédito especial, mas dá-nos, também uma noção realista da dimensão e dificuldades da tarefa que se perspectiva. Ao longo de quase 20 anos, o AA(ou a AA S.A., como se queira)sofreu uma sangria imensa de pessoal, perderam-se ritmos de trabalho, rotinas e enquadramentos, e as suas infraestruturas e parque de equipamentos estão, cremos, pelo menos em parte, no limiar da obsolescência, e carentes de actualização, não sendo de esperar que possam responder de imediato a solicitações de tecnicidade e dimensão correntes noutros tempos. Queremos crer que a 'alma' do AA continua lá, mas o músculo só à custa de forte investimento, em meios humanos e materiais, poderá ser restaurado.

É esse o nosso desejo. Afinal é para os navios que todo o sistema deve funcionar e ser concebido. Toda a Marinha precisa de um Arsenal, que só uma Marinha justifica a sua existência.

Quando dizemos Marinha, não excluímos a Autoridade Marítima e referimos um complexo sistema de múltiplas e variáveis valências (sendo a manutenção dos navios apenas uma delas) que se organizam e concorrem para fornecer um dispositivo naval credível como defensor da soberania do Estado Português. É um sistema com custos elevados, impossível de criar em pouco tempo e difícil de manter. O cálculo dos custos que implica deveria envolver o conjunto das valências e a optimização ser procurada ao nível do sistema.

Será altura de reavaliar o caminho? É, pelo menos, tempo de fazer um ponto ao meio dia e alinhar as peças. Talvez a nomeação de um grupo de trabalho, com objectivos e um prazo bem definidos, possa conceber um plano de acção credível, e definir medidas capazes de proteger os navios das consequências das dificuldades actuais, não voltando a menosprezá-los.

 (1) O Arsenal do Alfeite começou a ser construído em 1928, entrou em laboração em 1938 e foi oficialmente inaugurado em 3/Mai/1939, cerca de 11 anos depois, dia em que também se realizou o assentamento da quilha do D. João de Castro, navio hidrográfico, a primeira construção.

A. Vasconcelos da Cunha
H. Costa Roque

"Nos Mares da Memória - Estórias de uma Faina Maior" hoje 28JUL2021 RTP 2 às 23:30 horas


Uma perspetiva histórica de um passado glorioso nas artes da navegação e da pesca

Se Portugal tivesse que enumerar alguns dos seus feitos mais gloriosos, a descoberta dos mares gelados da Terra Nova e da Gronelândia bem como a pesca do bacalhau no século XV, seriam seguramente dois deles.

Ao longo de cinco séculos de história os portugueses levaram mais longe o conhecimento nas artes da navegação e da pesca. Foram os primeiros colonizadores dessas terras tão longínquas e, ainda hoje, apesar de praticamente terem abandonado esses lugares, deixaram marcas profundas na cultura local.

Notáveis na inovação e na construção naval, considerada a melhor por exímios navegadores, detiveram uma das maiores frotas de pesca do mundo e o que resta, são unicamente cinco embarcações: o "Creoula", o "Santa Maria Manuela", o "Argus", o "Santo André" e o "Gil Eannes".

Perdem-se no tempo as memórias dos poucos que fizeram da pesca do bacalhau a sua senda de vida. Escasseiam as vivências dos que as experienciaram com tanto sacrifício e dedicação.

Um projeto como este visa granjear e preservar as inúmeras lembranças deste passado tão presente para alguns. Sistematiza a informação escrita, fotográfica e cinematográfica e converte as "estórias" num autêntico documento audiovisual.

Fruto de muita investigação e empenho na recolha e tratamento de todos os conteúdos, nasce este documentário. Não pretende, de forma alguma, enunciar tudo o que a temática proporciona, deseja simplesmente ser o mais abrangente possível, numa perspetiva histórica, realçando os factos que nos pareceram mais relevantes e numa abordagem, até agora, não patenteada.

Fonte texto: RTP


terça-feira, 27 de julho de 2021

Declaração do ex-Presidente Ramalho Eanes
"A notícia da morte do Otelo Saraiva de Carvalho magoou-me e surpreendeu-me. Magoou-me, por se tratar de mais um amigo que parte. Surpreendeu-me, porque estive, recentemente, com o Otelo, no funeral da sua mulher, e achei-o, naturalmente, abatido, mas, aparentemente, com vigor e saúde.
Conheci o Otelo na Guiné, onde o substituí na Direcção da Secção de Radiodifusão e Imprensa do Comando-Chefe. Tornámo-nos amigos. Foi, aliás, essa amizade que me levou a testemunhar em seu favor no julgamento a que foi submetido, apesar de muitos reparos e apelos para que o não fizesse.
O Otelo era um homem bom, generoso, embora, por vezes, pouco prudente, pouco realista – contraditório, mesmo. Adorava representar, até na vida real, esquecendo que a representação exige um espaço delimitado, em que tudo o que aí é normal não o é na vida real.
Para mim, e apesar de todas as contradições, o Otelo tem direito a um lugar de proeminência histórica. E tem esse direito, apesar da autoria de desvios políticos perversos, de nefastas consequências, porque foi ele quem liderou a preparação operacional do 25 de Abril, a mobilização dos jovens capitães, o comando da operação militar bem-sucedida.
E penso assim porque entendo que um Homem é uma unidade e continuidade, uma totalidade complexa, e que só é bem julgado quando considerando, historicamente, esse quadro e o seu contexto. Mas há homens que, num momento histórico especial, se ultrapassam, ganhando dimensão nacional, indiscutível, porque souberam perceber e explorar uma oportunidade histórica única, e sentir os anseios mais profundos do seu povo.
Otelo é uma dessas personalidades. A ele a pátria deve a liberdade e a democracia. E esta é dívida que nada, nem ninguém, tem o direito de recusar.
António Ramalho Eanes"

Todas as opiniões devem ser respeitadas, concorde-se ou discorde-se.
Permiti-me aqui trazer as palavras do nosso primeiro Presidente da República em Democracia na sequência do falecimento do camarada de armas do Exército, Otelo Saraiva de Carvalho. 
Estive uma única vez com o então Capitão em 1972, quando embarcou no navio onde eu prestava serviço acompanhando vários jornalistas estrangeiros convidados do general António de Spínola, evento dos vários que constituíram boa parte da campanha de promoção daquele então governador da Guiné e Comandante-Chefe.

Concordo com tudo o que o general Ramalho Eanes entendeu partilhar com os seus concidadãos. 
Sublinho a amarelo o que para mim é evidente e não deve ser calado.
Sublinho a vermelho a referência feita com elegância a tudo o que de muito perverso e trágico aconteceu, infelizmente. 
Descanse em paz Otelo.

António Cabral
Contra-Almirante, reformado
(marrevoltado.blogspot.pt)

sábado, 10 de julho de 2021

A  SERVIR  PORTUGAL  NO  MAR

AO OLHAR HÁ POUCO PARA ESTE MEU MAGNÍFICO RELÓGIO ESTALOU-ME NA CABEÇA UM TURBILHÃO DE COISAS. POR EXEMPLO, EM CONSEQUÊNCIA DE:

> O QUE VAI DECIDIR MARCELO REBELO DE SOUSA QUANDO À LEGISLAÇÃO APROVADA RECENTEMENTE NA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA RELATIVA ÀS FORÇAS ARMADAS ?

> A QUESTÃO DOS INCÊNDIOS FLORESTAIS, POIS VEJO ANUNCIADO QUE ATÉ 30 DE SETEMBRO MILITARES DA MARINHA ESTARÃO EMPENHADOS NA VIGILÂNCIA DAS FLORESTAS E NA SENSIBILIZAÇÃO DA POPULAÇÃO PARA A PREVENÇÃO DE INCÊNDIOS FLORESTAIS. O EMPENHAMENTO PARECE QUE SERÁ NOS CONCELHOS DE, PALMELA, SETÚBAL, ALMADA, SESIMBRA, SINES, ALJEZUR  ALCÁCER DO SAL, ODEMIRA, SANTIAGO DO CACÉM E VILA DO BISPO.

> A GNR A LANÇAR ALERTAS BASEADOS EM PREVISÕES DO IPMA RELATIVAMENTE A AGITAÇÃO MARÍTIMA NA COSTA OCIDENTAL E, ALÉM DOS ALERTAS, A ACONSELHAR ATENÇÃO JUNTO DAS ZONAS COSTEIRAS E NO ACESSO AOS MOLHES.

> A PARTICIPAÇÃO DE MERGULHADORES DA MARINHA NUMA FORÇA NAVAL DA NATO QUE PROSSEGUIRÁ NO ÁRDUO E PERIGOSO TRABALHO DE DESACTIVAR ENGENHOS EXPLOSIVOS QUE REPOUSAM NO FUNDO DE VASTAS ÁREAS OCEÂNICAS.

> UMA LONGA ENTREVISTA DE MILITARES FEMININAS QUE OUVI NA TSF.

FICO POR AQUI.

ANTÓNIO CABRAL

CONTRA-ALMIRANTE, REFORMADO

(marrevoltado.blogspot.pt)

sexta-feira, 2 de julho de 2021

ARRASTO………CERTAMENTE  LEGAL

Mesmo em frente às praias "Areias de S.João da Caparica". Com telemóvel não dá para mais.

António Cabral

cAlmirante, reformado

(marrevoltado.blogspot.pt)

CTEN SEA José Batista Ferro

 

Foi com um sentimento de grande pesar que tomamos conhecimento, pelo FB, do falecimento do Cte. Ferro no Hospital da Luz onde se encontrava internado. Tinha 81 anos.

"O Navio... desarmado" apresenta sentidas condolências à sua Família e aos seus amigos e camaradas.

quinta-feira, 1 de julho de 2021

CMG (Ref) Júlio Alberto Xavier de Carvalho Araújo


Lamentamos dar a conhecer a seguinte informação veiculada pela "A Voz da Abita":

"Estimados Camaradas,

Com muito pesar damos a conhecer o falecimento, hoje no Hospital da Luz, do nosso Camarada Capitão de Mar e Guerra (R) Júlio X. Carvalho Araújo desconhecendo ainda as cerimónias fúnebres que lhe serão prestadas.

À sua Família, aos seus Amigos e Camaradas, em particular aos do Curso "V/ALM Campos Rodrigues" ao qual pertencia, as nossas sentidas condolências. "

"O Navio... desarmado" associa-se a esta manifestação de pesar e apresenta condolências à Família do Cte. Carvalho Araújo e aos seus amigos e camaradas.